Foi na final da Libertadores de 2019, Flamengo e River Plate. Sou tricolor e estava torcendo contra os rubro-negros. Na época, me pareceu correto. O River ia ganhando por um gol até o finalzinho do jogo, mas, por milagre, Gabigol fez dois gols nos últimos minutos. Uma virada épica, que deu o título ao Flamengo.
De tão heroica, me fez esquecer que eu estava torcendo contra. Até comemorei. Logo o ressentimento de quem torce contra me tomou outra vez e comecei a resmungar contra o resultado, igual àquele personagem de desenho animado, Muttley, o cachorro do Dick Vigarista.
A alegria dos rubro-negros nas ruas me deixou chateado. Vejam bem, o Flamengo não tinha derrotado o Fluminense, de quem sou torcedor, mas sim o River Plate, time que me é absolutamente indiferente. Por que, então? Pura mágoa pela alegria alheia. Eles comemorando e eu resmungando. Tem coisa pior?
No mês seguinte, o Flamengo perdeu para o Liverpool o campeonato mundial. Eu, mais uma vez ressentido e despeitado, comemorei o resultado. Posso chamar o que senti de felicidade? Claro que não. Foi apenas um alívio aguado, sabor felicidade. O que faz a gente feliz de verdade é torcer a favor do nosso time.
Pode parecer óbvio, mas tudo o que nasce do ressentimento deixa um gosto amargo. Schadenfreude é a palavra alemã para a alegria pela desgraça alheia. Alegria de Dick Vigarista, Muttley e, pelo visto, minha também.
A Copa do Mundo acabou no domingo. Ainda bem, porque estava um clima estranho. Nos últimos jogos, os virtuosos digitais, essa praga contemporânea, resolveram se interessar por futebol. Até então se mantinham à distância: o esporte era algo que não se prestava à sua autocelebração compulsiva. Como eles têm o toque de Midas ao contrário, transformam qualquer coisa em lixo, até uma Copa do Mundo.
Deram um jeito de estragar o evento. Se infiltraram nos posts e passaram a decretar qual seleção merecia torcida e qual não. Virou tribunal. Também distribuíram atestados de pureza moral aos países participantes, de acordo com seu primitivo conhecimento de geopolítica. Pior: exigiram a torcida contra as seleções que não eram do seu agrado. O que era até então algo folclórico entre rivais esportivos se tornou um combo de preconceito e xenofobia. Puro suco de ódio. Para os virtuosos digitais, é preciso, acima de tudo, fabricar inimigos.
Ô gente ruim, pensei, já começando a torcer contra eles.
Mas, para a gente normal, vale a pena trocar amor por ódio? Deixar de torcer pelo seu time para odiar o dos outros? Claro que não.
A maldição da torcida contra não está só no futebol. Vejam o filho do Bolsonaro, esse que ganhou um green card: foi ao Trump pedir tarifas mais altas contra o Brasil. Um tarifaço pode provocar uma grave crise econômica, mas ele não está nem aí, o que vale é prejudicar o atual governo. Se o custo da sua torcida contra é o desemprego de milhares de brasileiros, sejam rubro-negros, tricolores ou vascaínos, azar deles. Para ele o que interessa é ver o rival se dando mal. Que se dane o resto.
No futebol, nas redes ou na política, o que move a torcida contra é o ressentimento. Não tem jeito: o rival pode até perder, mas o gosto vai ser sempre amargo.
Três anos atrás, o Fluminense ganhou a Libertadores. Teve torcida contra de botafoguenses, vascaínos e rubro-negros? Não lembro, estava muito ocupado comemorando o título