Felipe Araujo, Diretor Executivo de Estratégia e M&A no Futebol
O encerramento de um ciclo de Copa do Mundo sempre movimenta o mercado do futebol. À medida que as seleções encerram seus trabalhos, treinadores de alto nível ficam disponíveis, aumentando a concorrência por vagas e, consequentemente, a pressão sobre profissionais que já estão empregados.
Nomes como Sebastián Beccacece, Didier Deschamps, Roberto Martínez e Marcelo Bielsa passaram a estar livres no mercado. Basta uma sequência de resultados negativos para que dirigentes e torcedores voltem a discutir uma troca de comando. O problema é que poucos enxergam o verdadeiro custo dessa decisão.
Quando um treinador é demitido, não sai apenas uma pessoa. Junto dele, normalmente deixam o clube auxiliares técnicos, preparadores físicos, preparadores de goleiros e analistas de desempenho. Uma comissão técnica na Série A costuma reunir entre 10 e 15 profissionais, todos com contratos e, muitas vezes, cláusulas rescisórias.
O custo dessa estrutura é elevado. Em clubes médios da Série A, uma comissão técnica representa entre R$ 600 mil e R$ 1,5 milhão por mês. Nos principais clubes do país, esse valor pode ultrapassar R$ 2 milhões mensais.
Assim, a troca de treinador frequentemente significa pagar a rescisão de uma comissão inteira para contratar outra imediatamente. A alta rotatividade ajuda a explicar esse cenário. Segundo levantamento do Observatório de Futebol do CIES, um treinador permanece, em média, apenas oito meses e 18 dias no comando de um clube da Série A. O Brasileirão foi a sexta liga com maior rotatividade de treinadores do mundo, com 17 dos 20 clubes trocando de técnico em um intervalo de apenas 12 meses. Enquanto, no Brasil, a permanência média é de 8,6 meses, na Europa ela varia entre 16 e 17 meses.
Essa cultura tem impacto financeiro. Os clubes da Série A encerraram 2025 com dívida conjunta de aproximadamente R$ 17,3 bilhões, média de R$ 865 milhões por clube. Evidentemente, a troca de treinadores não explica, sozinha, esse endividamento, que também envolve folha salarial, contratações, juros e passivos tributários. Porém, as rescisões constantes ampliam esse problema ao gerar multas, contratos sobrepostos e, em alguns casos, o pagamento simultâneo de duas comissões técnicas.
A pergunta que deveria anteceder qualquer demissão é simples: o problema está realmente no treinador ou na qualidade do elenco?
Em muitos casos, o treinador não consegue entregar resultados porque não dispõe das peças adequadas para executar sua proposta de jogo. O investimento para qualificar duas ou três posições pode ser financeiramente mais eficiente do que substituir toda a comissão técnica.
Os exemplos recentes reforçam essa tese. O Corinthians elevou o desempenho ofensivo após reforçar seu elenco com Memphis Depay, beneficiando também Yuri Alberto. O São Paulo dos anos 2000 construiu um ciclo vencedor com contratações pontuais. O Atlético Mineiro de 2013 apostou em um elenco competitivo, enquanto o Palmeiras manteve Abel Ferreira por anos e preferiu evoluir o grupo de jogadores, em vez de trocar o comando a cada momento de pressão.
No futebol moderno, o planejamento continua sendo mais barato do que recomeçar. Trocar treinadores pode produzir uma resposta imediata ao ambiente externo, mas nem sempre resolve a origem do problema. Em muitos casos, apenas aumenta o custo de uma decisão tomada sem a devida estratégia