Em uma partida de futebol, o juiz é a autoridade máxima dentro de campo: é dele a responsabilidade de interpretar os lances, aplicar as regras e tomar decisões que podem mudar a história do jogo e até de campeonatos. No entanto, ele pode cometer erros — tanto que, na história do esporte, não são raros os casos em que gols regulares foram invalidados ou o contrário e pênaltis foram mal marcados, só para citar alguns exemplos.
Para tornar as muitas vezes polêmicas decisões dos árbitros menos equivocadas, o futebol passou a contar, na última década, com o VAR (Video Assistant Referee ou Árbitro Assistente por Vídeo).
A ideia foi concebida inicialmente na Holanda como parte do projeto Arbitragem 2.0, idealizado pela Real Federação Holandesa de Futebol (KNVB), em 2010.
“O conceito do VAR surgiu do desejo coletivo da comunidade do futebol de proteger a integridade do jogo e eliminar erros claros que pudessem alterar o resultado das partidas, e ganhou projeção internacional à medida que erros de arbitragem em grandes competições passaram a frustrar torcedores e jogadores”, afirma Caio Lemos, gerente de Operações da Hawk-Eye Innovations, empresa que opera a tecnologia no Brasil.
Após a concepção do projeto, foram realizados vários testes simulados. O primeiro ao vivo aconteceu em um amistoso entre os times PSV e FC Eindhoven, da liga holandesa Eredivisi, em julho de 2016. A estreia do uso profissional se deu dois meses depois, em um jogo oficial da primeira rodada da Copa da Holanda (KNVB Cup) entre Ajax e Willem II.
Fora do território holandês, a tecnologia fez sua estreia em agosto de 2016 em um jogo entre Orlando City II e New York Red Bulls II, pela terceira principal liga do esporte dos Estados Unidos. No mês seguinte, foi usada em um amistoso entre Itália e França.
Já em torneios internacionais, o pontapé foi na Copa das Confederações da FIFA de 2017. Na ocasião, o VAR foi testado em 16 partidas, servindo de laboratório para a Copa do Mundo de 2018, que foi disputada na Rússia. No Brasil, chegou na final do Campeonato Pernambucano de 2017, entre Salgueiro e Sport.
O árbitro de vídeo não substitui o árbitro principal que fica no campo. Enquanto a partida se desenrola, uma equipe instalada na Central de Operações de Vídeo, mais conhecida pelo termo em inglês VOR (Video Operation Room), acompanha simultaneamente todas as imagens geradas pelas emissoras de televisão por diferentes ângulos.
Sempre que ocorre um lance potencialmente decisivo, essa equipe revisa as imagens. Caso identifique um erro claro ou um incidente grave não observado, comunica ao árbitro principal por meio de um sistema de rádio. Este pode rever as imagens em um monitor instalado na beira do gramado antes de tomar uma decisão.
“O VAR fortalece o trabalho da equipe de arbitragem, cuida da análise objetiva dos dados, permitindo que os árbitros concentrem sua atenção nos aspectos subjetivos do futebol, como a intenção dos jogadores e a interpretação das jogadas”, analisa Lemos, da Hawk-Eye Innovations.
Para evitar interrupções constantes, o protocolo do International Football Association Board (IFAB), órgão responsável pelas regras do futebol, limita a atuação do VAR a quatro situações:
Para a Copa do Mundo 2026, o IFAB incluiu infrações claras cometidas pelos jogadores antes de a bola entrar em jogo, em cobranças de escanteio ou de falta, quando essas infrações tiverem impacto direto em um gol, um pênalti ou uma sanção disciplinar.
Lemos explica que a tecnologia é um ecossistema avançado de dados e transmissão altamente sincronizado. “No caso do nosso sistema, ele captura todas as imagens aprovadas das transmissões em alta taxa de quadros provenientes das câmeras espalhadas pelo estádio e as integra à VOR”, destaca. “Nosso software garante que todos os ângulos de câmera estejam perfeitamente sincronizados, com precisão de milissegundos. Isso permite que o árbitro de vídeo analise um mesmo lance sob múltiplas perspectivas simultaneamente, recorte as imagens e utilize ferramentas de análise de alta precisão antes de comunicar as conclusões objetivas ao árbitro principal em campo.”
Eles acrescenta que o VAR opera como parte de um ambiente integrado de arbitragem e passou por muitos avanços nos últimos anos, sendo um dos mais significativos o desenvolvimento da Tecnologia de Impedimento Semiautomático (SAOT), que evoluiu para a Advanced SAOT.
“Ela elimina a necessidade de validação manual em casos claros de impedimento posicional, enviando alertas de áudio instantâneos diretamente aos árbitros em campo e gerando imediatamente animações em 3D para os telões dos estádios e para as emissoras de televisão em todo o mundo”, destaca.
Apesar da evolução, o gerente de Operações da Hawk-Eye Innovations observa que infraestrutura e escalabilidade estão entre os principais obstáculos para assegurar que o sistema opere com precisão e confiabilidade em todos os níveis do futebol. “As competições de elite contam com diversas câmeras e uma ampla infraestrutura tecnológica nos estádios. Em ligas nacionais ou divisões inferiores, essa nível de estrutura pode variar significativamente”, salienta.
Segundo Lemos, padronizar a latência dos dados e garantir que a tecnologia funcione perfeitamente tanto em arenas de última geração quanto em estádios regionais de menor porte continua sendo um importante desafio operacional, mas que tem sido enfrentado com sucesso