▲Cena da Guerra de Tróia, por Antonio Raffelle Calliano (1785-c.1824)

Em "A Maldição de Golias", Luke Kemp denuncia os impulsos dos impérios da Antiguidade, em particular de Roma, cuja queda considera ter sido “uma bênção” — ensaio crítico de José Carlos Fernandes.

[Este é o terceiro de seis artigos sobre ‘A Maldição de Golias’. Os anteriores podem ser lidos aqui:]

De acordo com Luke Kemp, apesar de a humanidade viver mais feliz e saudável antes da emergência da agricultura, das cidades e dos Estados, estes últimos acabaram por impor-se, devido à superioridade da sua organização e do seu poderio bélico. Pouco a pouco, os Estados, apoiados em mecanismos extractivistas de eficácia crescente e em “ideologias de dominação” como “o mito da meritocracia” (que persuade as pessoas a aceitarem a desigualdade como natural) e a religião (que robustece a hierarquia, impõe um comportamento moral e instaura uma atmosfera de vigilância e controlo), foram ocupando territórios cada vez mais vastos e submetendo ou expulsando para as periferias os grupos que rejeitavam fazer parte dessas entidades totalitárias, hierárquicas e patriarcais. Porém, a dinâmica que fez os Estados prevalecerem sobre as formas anteriores de organização social traz sem si mesma as sementes da sua própria destruição: “Uma cidade-Estado belicosa podia facilmente fazer com que outras começassem a gastar mais recursos em muralhas e lanças, e menos na produção de alimentos e na construção de estradas. Aquelas que não o faziam eram conquistadas. […] As corridas ao armamento, a competição destrutiva que empurra todos para padrões cada vez piores e a procura de status através de consumo ostensivo […] tornaram-se armadilhas competitivas” (pg. 200). Sob o efeito perverso deste três factores, que Kemp designa por “armadilhas para Golias”, os Estados acabam, na visão do autor, por ser conduzidos para o abismo.

A história faz-se de ascensões e colapsos de impérios, que dão, por sua vez, espaço a que se ergam novos impérios. Nesta sucessão de altos e baixos, Kemp dedica particular atenção ao fenómeno generalizado de colapso ocorrido no final da Idade do Bronze, na viragem dos séculos XIII-XII a.C., afectando simultaneamente vários Estados da região do Mediterrâneo e Levante. Este megacolapso é usualmente associado às invasões pelos enigmáticos “Povos do Mar”, mas Kemp rejeita a ideia de uma “força invasora unificada” em favor de movimentações espontâneas de “refugiados, imigrantes e povos sabiamente itinerantes do Egeu e do Mediterrâneo oriental, que se deslocavam por causa da seca, guerra, opressão e dificuldades económicas” (pg. 215), no que é acompanhado por historiadores respeitáveis, e acaba por concluir, mais polemicamente, que “o colapso do Bronze Tardio não foi apocalipse nenhum” (pg. 218).

Na perspectiva de Kemp, foi mesmo um exemplo paradigmático do “colapso como uma bênção”, pois o que se seguiu não foi a “idade da trevas” pintada pela historiografia tradicional: “O colapso […] acabaria por abrir espaço para o surgimento de formas de organização mais democráticas. O colapso de Micenas nivelou a desigualdade económica. […] Os primeiros códigos legislativos criados pelos gregos (mais ou menos a partir de 620 a.C.) visavam limitar a capacidade de um dado indivíduo dominar os demais [e instaurou-se o uso de] tomar decisões colectivas através de assembleias em massa. Estas práticas e normas formaram as bases da posterior democracia ateniense” (pg. 220-21).

A fim de legitimar as suas teses descabeladas, Kemp adopta, quando lhe convém, o princípio de que, se o evento B ocorre depois do evento A, o evento A é a causa do evento B – uma falácia usualmente designada como “post hoc ergo propter hoc” (“depois disto, logo, por causa disto”). Esta falácia é ainda mais evidente quando, como é o caso, medeiam seis séculos entre o evento A (colapso de Micenas) e o evento B (implementação da governação democrática pelos atenienses).

Mas Kemp tem uma agenda para promover e não permite que a lógica atrapalhe o seu louvor do colapso civilizacional e logo volta a usar o estulto argumento “post hoc ergo propter hoc”: “Homero, autor da Odisseia e da Ilíada, foi um poeta desta idade das trevas grega. Outro foi Hesíodo, o poeta que compôs Teogonia e Os trabalhos e os dias. […] Sem o colapso, o mundo teria ficado privado de Homero e de outras tantas pilhas de literatura épica” (pg. 220).

“Homero e o seu guia” (1874), por William-Adolphe Bouguereau

Para começar, não só a existência histórica de Homero tem vindo a ser posta em causa, como é provável que a Odisseia e a Ilíada não sejam obras nascidas, num momento definido, da imaginação de um indivíduo, mas sim da fixação em texto, por um ou mais compiladores, de diversas tradições orais da Grécia e Ásia Menor, amalgamando elementos de diferentes épocas, num processo incremental que terá decorrido nos séculos VIII-VII a.C. Acontece que muitos objectos e costumes descritos na Odisseia e na Ilíada remontam à Idade do Bronze tardia e, a ter existido efectivamente, uma Tróia e um cerco de Tróia (ainda que não nos moldes precisos descritos nos poemas), é possível que tenha tido lugar no século XII a.C. (na hipótese de a Tróia literária corresponder ao nível conhecido como “Tróia VIIa” no sítio arqueológico perto de Çanakkale, na Turquia). Independentemente de a Odisseia e a Ilíada terem sido obra de Homero ou de outro poeta ou um processo colectivo de fixação, homogeneização e refinamento de tradições orais mais antigas, voltamos a ter um hiato temporal de quatro ou cinco séculos entre o colapso da Idade do Bronze tardia e os eventos benéficos que esta, supostamente, desencadeou.

De qualquer forma, Kemp parece não se dar conta da ironia que é a Ilíada, por que nutre (justamente) grande apreço, ter por assunto as guerras sangrentas travadas pelos “Golias” micénicos, cujo colapso Kemp considera ter sido uma bênção para a humanidade.

“Aquiles derrotando Heitor” (1630), por Peter Paul Rubens

Quanto a Hesíodo, a informação disponível é escassa e está envolta nas brumas do mito, mas a maioria dos peritos admite que teve existência real e que foi ele o autor da Teogonia e de Os trabalhos e os dias (e de outros textos que nos chegaram apenas em forma fragmentária). Supõe-se que terá vivido nos séculos VIII ou VII a.C., o que, mais uma vez, compromete a tese de que Hesíodo foi fruto do colapso do “Golias” micénico.

O nexo causal que Kemp estabelece entre o colapso de Micenas e a aparição de “Homero” e Hesíodo é tão disparatado como afirmar que sem a perda de independência de Portugal em 1580, o mundo teria ficado privado de Eça de Queiroz e Fernando Pessoa”, ou que “sem a dissolução do Império Austro-Húngaro após a I Guerra Mundial, o mundo teria ficado privado de Thomas Bernhard, Peter Handke e Elfriede Jelinek”.

Na verdade, nem sequer se percebe que Kemp classifique Micenas como um “Golias”: a civilização micénica não era um império hegemónico e uniforme, era uma constelação de pequenas cidades-Estado independentes, cada uma com o seu rei, ligadas por uma teia de alianças e rivalidades e que podem ter assumido, em alguns períodos, a forma de uma confederação. Ainda que não existam certezas quanto à organização política de Micenas, dada a escassez de registos, parece pouco provável que alguma vez tenha existido um poder centralizado.

A manta de retalhos da Grécia Micénica (c.1400-1250 a.C.): as áreas coloridas correspondem a Estados com existência confirmada

Para mais, Kemp parece não compreender que o génio literário e artístico irrompe aleatoriamente, sendo independente dos indicadores de bem-estar, democracia e igualdade: uma sociedade estável, pacífica e igualitária pode produzir apenas artistas e escritores medíocres e olvidáveis e os génios podem brotar numa sociedade turbulenta, violenta e desigual.

A ideia de que os “Golias” inibem o surgimento de criadores de génio e a produção de obras-primas e que estas são favorecidas pelo seu colapso é constantemente desmentida pela história. Considere-se o exemplo da Atenas do século V a.C.: Kemp vê esta como consequência benéfica do colapso do (suposto) “Golias” micénico e elogia a sua governação inclusiva e a sua efervescente vida intelectual, mas omite que a cidade-estado foi, no seu período de maior esplendor, num verdadeiro “Golias”. Atenas tornou-se na potência marítima n.º 1 do Mediterrâneo; praticou uma política de expansão agressiva; converteu os seus aliados na Liga de Delos em Estados-vassalos, obrigados a pagar-lhe tributo e a financiar a sua política (a troco de “protecção”); envolveu-se numa sucessão de guerras, na Grécia e no Mediterrâneo Oriental; assentava no trabalho dos escravos (que representavam, no século V a.C., 25%-30% da sua população); e cultivou a misoginia e a segregação por género (as mulheres serviam essencialmente para parir crianças e cuidar delas).

O estadista e general Péricles (c.495-429 a.C.) ficou associado à era de ouro de Atenas, também conhecida como “Era de Péricles”. Cópia romana de original grego de c.430 a.C.

Kemp defende que “os antigos atenienses teriam entendido os nossos sistemas [políticos] actuais, não como democráticos mas como hierarquias” – e quando desvaloriza as democracias do nosso tempo, Kemp não está a referir-se a “democracias eleitorais” como a Rússia de Putin ou a Bielo-Rússia de Lukashenko, mas às “democracias liberais da Escandinávia” que, no seu ver, não passam de “hierarquias democráticas” (pg. 94)