Escritor e roteirista, autor de "Por quem as panelas batem"

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O que aconteceu com a seleção brasileira? Sei pouco de futebol. Procuro, portanto, ouvir quem entende. Passei os melancólicos últimos dias conversando com o amigo Nelson Rodrigues. "À sombra das chuteiras imortais", coletânea da Cia das Letras, organizada pelo Ruy Castro é, com o perdão do clichê, uma aula de Brasil. Está ali, entre outras, a clássica crônica do "Complexo de vira-latas". Foi publicada na Manchete Esportiva no dia 31/05/1958. "Última crônica antes da estreia do Brasil na Copa", diz a nota de rodapé. (Nas semanas seguintes o mundo saberia como aqueles pés rodopiariam.)

Na crônica, Nelson fala do nosso sentimento de inferioridade diante dos europeus. "Em Wembley, por que perdemos? Porque diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade." Como se sabe, naquela Copa foram as sardas que ganiram. Nós latimos, mordemos e um menino de 17 anos recebeu a taça das mãos de um rei.

Foi curioso reler as crônicas. O que fica dos textos, lidos todos na sequência, é bem o oposto do nosso vira-latismo: "Diziam de nós que éramos a flor de três raças tristes. A partir do título mundial, começamos a achar que a nossa tristeza é uma piada fracassada. Afirmava-se também que éramos feios. Mentira!". "A pura, a santa verdade é a seguinte, qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: -- temos dons em excesso."

Temos dons em excesso. Nelson Rodrigues, que em suas peças enxergava pelas brechas o pior do ser humano, conseguiu ver pelas brechas do futebol o melhor do brasileiro. Aquele ranzinza era na verdade um otimista. Talvez por isso, aliás, fosse tão ranzinza, pois sua gastrite gritava ao constatar que o Brasil não estava à altura de sua visão. "O Brasil não merece o Brasil", cantaria alguém depois.

"Brechas" me levam ao historiador Luiz Antonio Simas. Num vídeo no Instagram, após a derrota, disse estar chateado por não estar chateado. Pois o Brasil que perdeu foi um Brasil que abriu mão "das nossas formas originais de jogar bola". "Um país que construiu sentidos de vida nas brechas de projetos de horror". O drible foi a invenção do negro para passar pelo branco sem tomar um enquadro da polícia. Havia aí um projeto de país. Complexo. Triste, talvez. Cheio de contradições, mas com luz no fim do túnel. Esse projeto morreu.

Essa seleção que caiu diante da Noruega, da Croácia, da Bélgica, da Alemanha, não é a seleção da brecha, é a do "projeto de horror". É a do "cidadão de bem" que urra "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas", mas ainda não voltou pro seu lugar quando começa o segundo tempo porque tá comprando um hot-dog –e escrevo cachorro-quente em inglês de propósito.

Não foi a seleção que apequenou-se, foi o Brasil. A seleção representa exatamente o que somos hoje. O país das bets, dos Vorcaros, do centrão –e o que eram aqueles toques pro lado e pra trás no meio de campo senão um balé bem ensaiado da nossa política, que jamais levará o país (ou o time) pra frente? No Brasil em que Nelson escrevia construía-se Brasília e a Bossa Nova. Tom e Vinícius eram nossos Pelés e Coutinhos. Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque vinham chegando. No Brasil de hoje discutimos se a Virgínia deve ser comentarista da Copa. A gastrite do Nelson estaria ganindo.

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