‘A burocracia aristocrática dificulta administrar o Brasil’, diz Roberto DaMatta
Antropólogo e colunista do Estadão faz 90 anos e reflete sobre sua trajetória. Crédito: Imagens: Pedro Kirilos/ Edição: Andressa Brito
A primeira é a de ser arrebatado por um espetáculo competitivo rigidamente demarcado no tempo e no espaço por regras simples e de todos conhecidas, capazes de produzir acontecimentos contrários às intenções dos jogadores que disputam o comando incontrolável de uma bola.
Ao contrário do trabalho, quando jogamos, não sabemos o resultado, pois os jogos, como o teatro, são autorreferidos e, assim, independentes das rotinas da vida diária. Nesse sentido, os jogos e o futebol são pausas dentro do ideal racional de juntar meios e fins para obter resultados precisos – justamente o que o futebol, jogado com os pés, desafia.
Minha segunda saudade é que essas Copas criam fascinantes realidades paralelas, produzindo “torcidas” – coletividades socialmente heterogêneas e fervorosas que, não obstante, se desfazem quando a Copa termina ou quando o time é desclassificado.
Roberto DaMatta: ‘O maior sofrimento é nos conformarmos com a ideia de que somos finitos’
As Copas relativizam a roubalheira e a incompetência dos governos e dos canalhas que usam o governo para conturbar o jogo democrático. Nesse sentido, as Copas deflagram experiências de obediência à lei, raramente vistas no mundo diário. No futebol, a excelência com a bola vale mais que o nome de família, o radicalismo político ou os amigos. A imparcialidade e o desempenho individual e coletivo são determinantes. O esporte rompe com visões negativas, criando percepções positivas e libertadoras em países marcados por uma cultura de autodepreciação. No caso do futebol, um esporte inventado por uma potência colonizadora, há uma formidável experiência de vitória, progresso e esperança.
Uma outra saudade tem a ver com uma mundialização positiva e fraterna que transcende os horrores da globalização geopolítica trumpista que vivemos.
O futebol e o esporte são metáforas positivas de guerras das quais ninguém sai ferido, exceto no sentido de saber vencer ou perder. Eles não demarcam superiores ou inferiores definitivos e ensinam uma humildade que me parece uma experiência humana essencial. Mesmo doendo, temos certeza de que o jogo vai acabar e que essas angústias passarão, tal como ocorre nas Copas.
Minha última saudade tem a ver com a natureza não progressista e acumuladora do futebol que não permite os determinismos das ideologias e visões de mundo fechadas. Pois, no futebol, não sabemos quem será perdedor ou vitorioso. Tampouco sabemos de seu desenrolar que não tem algoritmos ou a submissão às teorias financeiras dos mercados. Pentacampeões não acumulam campeonatos como os bilionários americanos.
De repente, estamos diante de um evento que trata todos os disputantes como humanos – certos de seus riscos, conscientes de suas excelências e deficiências, emocionados com suas vitórias