Rafaela Ferreira é hoje a única brasileira na grade da F1 Academy, categoria feminina ligada ao calendário da Fórmula 1. Piloto do time ligado à Red Bull, ela carrega um objetivo que nenhuma mulher realizou na história da categoria máxima do automobilismo: tornar-se piloto titular de uma equipe de Fórmula 1.

A ausência é conhecida no paddock. Desde a criação do campeonato, em 1950, nenhuma mulher assinou contrato como titular de uma escuderia na Fórmula 1. Cinco mulheres já foram ao grid de corridas oficiais ou tentaram classificação, mas nenhuma teve assento permanente como titular.

“O sonho de todo mundo é chegar na Fórmula 1”, diz Rafaela. “Eu acho que em cinco anos é um sonho um pouco bem otimista, para falar a verdade, é um caminho para trilhar um pouco mais longo. Mas com certeza sim, nas corridas”.

A trajetória de Rafaela começou dentro da paixão do pai por kart. Ela tinha 2 anos quando passou a acompanhá-lo nas pistas, sentada no colo dele durante os treinos. Aos cinco anos pediu um kart próprio, mas os pais consideraram arriscado demais para a idade.

“Com 8 anos, daí fiquei insistindo, comecei a competir”, lembra. “E nunca imaginei que eu fosse fazer uma carreira, sempre porque eu gostei. Gostava de pilotar, ia para pista domingo assim mesmo, andando”.

A evolução, segundo ela, aconteceu “indo bem, fomos subindo a escadinha”. Não havia projeto profissional naquela fase, apenas a vontade de pilotar nos fins de semana.

Na atual temporada da F1 Academy, Rafaela descreve um ano de resultados consistentes, com lutas recorrentes pelo top cinco e aproximações frequentes do pódio. O primeiro ano na categoria, o anterior, funcionou como período de adaptação ao nível internacional, mais exigente do que o cenário brasileiro.

“Este ano tem sido um ano muito bom, para falar a verdade. A gente tem sempre lutado ali para estar no top cinco, sempre lutando pelo pódio, fazendo muito perto, todas as vezes do pódio”, avalia.

“Acho que foi ano passado para mim, meu primeiro ano na Fórmula 1 Academy, foi um ano de aprendizado. É difícil sair do Brasil e correr fora. Tem muito, o nível é muito maior, muita coisa para aprender. E esse ano foi o ano que tudo que eu aprendi ano passado foi para eu colocar em prática esse ano”.

Ela aponta a curta janela de pista como um dos principais desafios da categoria. Os fins de semana de corrida costumam ter poucas voltas de treino antes da disputa direta, o que exige preparação intensa fora da pista, em simulador e treinamento físico.

Estar no programa ligado à Red Bull tem significado especial para Rafaela, que se declara fã da equipe desde antes de competir por ela. “É uma honra assim, não é nem porque eu tô lá, mas é o time que eu sempre torci na minha vida. Eu sou uma super fã do Marko, tá no mesmo time que eles”, diz, referindo-se ao estreito vínculo com a estrutura da marca.

O acesso à fábrica, a sessões de simulador e a engenheiros que também atendem pilotos de Fórmula 2 e Fórmula 3 é citado como diferencial em relação a categorias anteriores. “Somos tantas coisas assim que às vezes não tinha acesso antes, não tinha acesso em outras categorias”, explica.

Uma frase vista nas instalações da equipe resume, segundo ela, o principal aprendizado absorvido desde a chegada: a ideia de que trabalho duro supera talento. “Eu acho que tem uma frase lá na parede que fala que o trabalho duro ele supera até o talento”, relata.

“Eles sempre me ensinaram desde o dia que eu cheguei lá para sempre dar 101%”, diz. “Se eles me mandam fazer 10 repetições de alguma coisa na academia que eu faça 12, que toda vez que eu for na academia eu pego um peso a mais, que toda vez que eu for fazer simulador eu faço algo a mais. Então eles têm essa cultura de sempre fazer algo a mais, sempre trabalhando mais”.

Entre as inspirações no automobilismo, Rafaela cita o companheiro de equipe na Red Bull, Max Verstappen, pelo foco constante nas atividades. “É um cara sempre focado no automobilismo. Ele gosta do que ele tá fazendo, não tá lá só trabalhando”, diz.

Ela também menciona Ayrton Senna como referência trazida pelo pai, especialmente nas corridas disputadas sob chuva, condição que ela dizia evitar quando criança. “Eu não gostava de corrida de chuva, odiava, falava que eu não ia para pista se tivesse chovendo. Meu pai me mostrava todas as coisas do Ayrton Senna na chuva, falava tipo: não, vamos, vamos correr, olha como ele faz”.

Rafaela avalia positivamente o momento atual do automobilismo brasileiro, marcado pela presença de Gabriel Bortoleto na Fórmula 1 após um período sem representantes do país na categoria. “Veio um monte de nomes que não só estão andando, mas estão andando bem, estão andando na frente, ganhando, disputando polín, disputando campeonato, Fórmula 2, Fórmula 3, Fórmula 4, tem um monte aí pelo mundo”.

“Desde que agora a gente tem o Gabriel Bortoleto ali na Fórmula 1, isso gera um olhar maior pro automobilismo. Acaba abrindo as portas”, afirma. “É muito bom que a gente tem um brasileiro ali na Fórmula 1. Inspira a galera que tá aqui, mostra que dá para trabalhar: ser brasileiro, chega lá, não é alguma coisa impossível”.

“Muito feliz assim com o que o automobilismo tá crescendo, brasileiro lá pro mundo. Hoje a galera olha pro Brasil e fala: ‘hum, com certeza deve andar bem’”.

Questionada sobre barreiras para mulheres no esporte a motor, Rafaela reconhece avanços, mas evita minimizar as dificuldades. “É um pouco difícil de falar nisso, sabe? É um pouco complicado, mas a gente tem pouquíssimas meninas ainda competindo”