Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências
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Após a eliminação da seleção brasileira pela Noruega na Copa do Mundo, passou a circular nas redes sociais uma sugestão teológica que justificaria nossa derrocada futebolística. Segundo ela, teríamos parado de ganhar títulos conforme nos tornamos mais evangélicos e menos católicos. Ao longo da última semana, recebi dezenas de mensagens de amigos repercutindo a associação e me perguntando: faz sentido?
Em resumo, o argumento é que o estilo marcadamente brasileiro de se jogar, aquele que nos fez pentacampeões, encarnaria predicados católicos. A poesia do nosso futebol, em oposição à prosa europeia, na fórmula consagrada por Paolo Pasolini, seria, antes de tudo, católica. Daí viriam a alegria nos pés, a beleza do improviso popular, o senso de coletividade e a ginga da nossa vocação com a bola.
Essas características teriam desaparecido dos corpos dos jogadores juntamente com o processo de conversão deles. Afinal, se há um processo perceptível mesmo para aqueles que só acompanham futebol a cada Copa do Mundo, é que agora raros são os jogadores brasileiros que ultrapassam a marca de duas entrevistas sem mencionar Jesus.
A protestantização do futebol brasileiro teria nos afastado decisivamente do troféu. Isso porque o ethos evangélico teria deixado nosso jogo mais individualista, mais focado na salvação individual, na disciplina rígida e categórica, tirando espaço daquilo que nos fez vencedores originalmente.
No fundo, é uma tese com ares do conforto de um argumento culturalista em que tudo se encaixa. Fato é que a sugestão empresta um elemento fundamental para as discussões sobre o futebol brasileiro: o de que alguma coisa mudou radicalmente.
Algo teria mudado a ponto de sequer reconhecermos, nas últimas seleções, o espírito da seleção. Nessa leitura, tão abrupta e definitiva quanto a conversão de Paulo de Tarso a caminho de Damasco foi o caminho sem volta em que a canarinha teria entrado depois de 2002.
Argumentos como esse operam dois movimentos ao mesmo tempo. Por um lado, preservam a ideia de que somos essencialmente muito bons. Por outro, afirmam que se perdemos não foi porque a essência se desfez, mas porque um fator externo a comprometeu.
É um tipo de formulação aparentada com aquela que diz: na bola, no campo mesmo, somos imbatíveis, mas o problema é a incapacidade emocional dos nossos jogadores. E assim continuamos discutindo futebol sem discutir o jogo. Afinal, no jogo, seríamos essencialmente invencíveis.
A associação entre as derrotas da seleção nas últimas seis Copas e o crescimento do pentecostalismo no Brasil é tão pertinente quanto a invenção da fritadeira elétrica e o fim do futebol-arte brasileiro. Nenhuma.
Contra ela, alguns antídotos poderiam ser aplicados. Um deles é o antídoto da memória, muito raro entre torcedores de futebol. A derrota da seleção em 2006 teve como justificativa, nos lembremos, o excesso de festa. Estaríamos carnavalescos demais. Será, então, que perdemos porque fomos excessivamente católicos?
O que dizer, então, dos pentacampeões evangélicos que, em círculo no gramado, vestindo camisetas devocionais, oraram em agradecimento após a conquista?
Ou ainda lembrar de iniciativas evangélicas de formação de base, como o Atletas de Cristo, que têm contribuido para formar jogadores e atletas olímpicos no país.
Nós não perdemos porque os jogadores se converteram, mas esse é o tipo de debate que sempre fará sucesso porque permite que o futebol continue sendo o consenso dos nossos dissensos mais profundos. A Copa do Mundo é um fato social total; nela cabe tudo, até mesmo falar sobre aquilo que nada tem a ver com futebol.
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