O 7 a 1 aplicado pela Alemanha no Brasil explicitou uma aparente diferença estrutural significativa do futebol alemão para o brasileiro. A percepção era de que estávamos muito atrás, de que era questão de tempo para os germânicos também alcançarem o pentacampeonato mundial. Doze anos depois, nossos algozes nunca pareceram tão distantes de ganhar uma Copa do Mundo.

Depois de eliminações consecutivas na fase de grupos, em 2018 e 2022, desta vez a equipe alemã caiu no primeiro mata-mata para o Paraguai. Enquanto isso, mesmo tão criticada, a Seleção Brasileira teve campanhas consideravelmente melhores em todas as edições.

Brasileiro naturalizado alemão, o ex-atacante Cacau jogou a Copa do Mundo de 2010 com a seleção alemã, ocasião na qual compartilhou vestiário com o técnico Joachim Low e vários dos jogadores campeões quatro anos depois. Em entrevista ao Lance!, o ex-atleta relembrou a evolução gradual da Alemanha e explicou que a queda da atual geração tem relação com um desequilíbrio na formação.

— O trabalho até 2014 foi de renovação e reformulação na formação, combinando a força que os alemães já tinham com a parte técnica, implementado pelo treinador Joachim Löw. Chegou longe em 2006, na Eurocopa de 2008, em 2010, na Eurocopa de 2012, uma ascensão constante até o Mundial de 2014. Era uma geração de jogadores de qualidade, mas com mentalidade muito forte, a grande diferença para os que vieram depois. O problema na formação dos jogadores da Alemanha é esse: não conseguem juntar essas duas partes, a técnica que tanto melhorou nos últimos anos com a mentalidade que fez da Alemanha a força que é mundialmente — analisou.

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Com uma população três vezes maior que a da Alemanha, o Brasil continua produzindo ao menos um craque por geração, mesmo com problemas estruturais. É o caso de Neymar, que não entrou em campo no 7 a 1 por lesão, e agora de Vini Jr, um dos melhores jogadores desta Copa do Mundo. Enquanto isso, os alemães se mostram carentes de atletas desequilibrantes.

A queda da seleção alemã no Mundial de 2018 permitia a justificativa de que a base do time campeão não tinha mais a mesma gana de quatro anos antes, ou mesmo que os jogadores sofreram declínio físico. Agora, em 2026, um time inteiramente novo repetiu o fracasso. E não há fuga para a constatação inevitável: a Alemanha não assusta mais. A frieza deu lugar à apatia.

— Sim, certamente é o que parece — afirmou o atacante Kai Havertz, quando questionado se a Alemanha havia virado um "time de segundo escalão".

O capitão Joshua Kimmich virou símbolo dos tempos sombrios do futebol alemão: o ídolo do Bayern de Munique fez parte dos elencos de 2018, 2022 e 2026. O jogador polivalente surgiu como promessa, o ar fresco da geração vitoriosa, e se tornou o maior líder da equipe. Após mais uma eliminação, o volante também constatou a queda de qualidade da equipe nacional.

— Nós acreditamos em nós mesmos, mas, no final das contas, não foi suficiente. Talvez também falte um pouco de qualidade, porque temos de admitir que, quando você olha para trás e vê os quatro jogos, não foi suficiente, não foi sempre realmente bom. O primeiro jogo foi muito bom. No segundo, tivemos um pouco de sorte. Depois, nós perdemos dois jogos. Isso não é suficiente para a Alemanha — declarou em entrevista à "CazéTV".

O técnico Julian Nagelsmann também compartilha da mesma percepção.

— Ser eliminado na primeira fase (de mata-mata) não é suficiente para o futebol alemão. Esta é a terceira eliminação consecutiva, então não fazemos mais parte da elite dos times. Estou decepcionado — lamentou.

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Pesadelo. Vergonha. Humilhação. Essas três palavras foram usadas pelos principais jornais alemães para descrever a derrota nos pênaltis para o Paraguai. Para o "Süddeutsche Zeitung", inclusive, a eliminação foi ainda mais vergonhosa do que as consecutivas quedas na fase de grupos. Quase todos os periódicos admitiram sem hesitação que o adeus precoce foi merecido.

Entre tantas reflexões na Alemanha, uma se repete: um país preso entre o passado e o presente. A geração de 2014, que hoje tem representantes em diferentes veículos alemães como comentaristas, deixa marcas e faz o povo clamar por outro time intenso, vertical, simbolizado pelo histórico 7 a 1. Mas o elenco atual aponta para outras características: menos intensidade, mais cadência.

As considerações que o tetracampeonato alemão deixou talvez não tenham sido tão precisas, porque o futebol é dinâmico. Um time vitorioso e encantador comprova que o projeto conduzido até ali foi bem-sucedido, mas não garante sucesso nos anos seguintes.

O time de 2014 era uma evolução do tiki-taka espanhol, com apreço à posse de bola, porém mais verticalidade e intensidade. Schweinsteiger e Khedira ofertavam poder de marcação. Kroos regia o time. Özil e Müller acrescentavam objetividade aos ataques. Schürrle fazia perfeito trabalho sem bola. E Klose transformava o domínio em gols.

O futebol ganhou velocidade, mas a seleção alemã curiosamente não soube acompanhar. As peças mais técnicas que surgiram desde então, como Florian Wirtz, Jamal Musiala e Kai Havertz, carecem de companheiros mais rápidos e objetivos. O resultado: uma Alemanha morosa, que passou 75% do tempo com a bola contra o Paraguai, mas só conseguiu marcar em um cruzamento.

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De um gol ao outro, os ciclos que sucederam o título apresentaram lacunas na formação de jogadores. O surgimento do revolucionário Manuel Neuer não parece ter sido uma tendência. Aos 40 anos e bem longe do auge, o goleiro foi chamado de volta pelo técnico Julian Nagelsmann pela falta de concorrentes. Também já longe do seu melhor nível, Leroy Sané foi a solução para tentar acelerar o jogo pelos lados. No comando de ataque, Deniz Undav até tornou-se grata surpresa na fase de grupos, mas não mascarou a falta de um matador confiável no elenco