Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Lá se vão 68 anos, o tempo de uma eternidade no futebol. A fotografia é uma das imagens mais bonitas da primeira Copa do Mundo vencida pelo Brasil, em 1958, na Suécia. Depois da final contra a Suécia, com vitória por 5 a 2, Pelé chora nos ombros do goleiro Gylmar, de braço esquerdo erguido. Didi, o “príncipe etíope”, na definição de Nelson Rodrigues, compõe a cena de beleza indizível. Era um 29 de junho, dia de São Pedro. Dez dias depois, João Gilberto entraria no estúdio da Odeon, na Cinelândia carioca, para gravar Chega de Saudade. Chega de saudade, porque aquela camisa vestida pelo rei – azul, embora a memória seja tingida de preto e branco – acaba de ser levada à leilão pela Sotheby’s, em Nova York. A peça foi vendida a 4,9 milhões de dólares, o equivalente a 25 milhões de reais. O comprador permanece no anonimato.
Temos a mania – e o prazer, sim – de tentar fazer comparações, de medir o que não pode ser medido, de querer saber se houve alguém maior do que Pelé no futebol (não), se Maradona chegou lá, se Messi anda ciscando na área. São perguntas que talvez nunca possam ser respondidas, daí a graça de fazê-las. Pelé ou Messi? Messi ou Maradona? Maradona ou Pelé? Cabe então uma brincadeira, um exercício, uma espécie de “índice do martelo”, que ajuda a iluminar alguma coisa – embora a distância entre épocas faça toda a diferença. No tempo de Pelé não havia transmissão pela televisão e, claro, muito menos pela turma que grita no YouTube. Com Maradona, o momento da tecnologia era outro – com TV, por óbvio, mas não com a audiência de hoje. Para Messi, na cacofonia das redes, é tudo ao mesmo tempo, agora. Estabelecidas as distinções, cada qual em sua era, a dinheirama posta na Sotheby’s põe os personagens na balança.
A 10 de Pelé em 1958, que não se perca o fio da meada, vale 25 milhões de reais. Em 2022, o uniforme usado por Maradona na Copa do Mundo de 1986, quando marcou o gol da “Mão de Deus” contra a Inglaterra, além daquele outro, o mais bonito de todos os tempos, o “gol do século”, foi vendido por 9,3 milhões de dólares – algo em torno de 47,5 milhões de reais. Em dezembro do ano passado, um lote de 6 camisas da Argentina usados por Messi na Copa do Catar chegou a 7,8 milhões de dólares, ou 40 milhões de reais – eram meia dúzia de unidades, e não apenas uma.
Na matemática das cifras, teríamos, portanto, Maradona na liderança, depois Messi e então Pelé. Mas isso é a conta fria e mercantilista, que diz algo, mas está longe de dizer tudo. Como informa aquele famoso dístico de uma marca de cartão de crédito, tem coisa sem preço. Há as lembranças, o passado a desenhar o futuro, o susto do novo – e Pelé, ao modo de Muhammad Ali, mas sem o peso social e político do maior de todos os pugilistas, leva a história de mãos dadas. Maradona, um pouco menos, mas bastante. Messi, quase nada. Mas esse aspecto, o do peso da civilização, não foi levado em conta nos cálculos de quem arrematou os lendários pedaços de panos azuis. Com João Gilberto: “Chega de saudade/A realidade é que sem ela não há paz/E a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai.”