Ana Maria Oliveira é jornalista e doutora em ciências sociais pela PUC Minas _ Nesta Copa do Mundo, a seleção brasileira (“s” e “b” em minúsculas, intencionalmente) roubou nossos sonhos e esperanças. Lembrando a música “Rita”, de Chico Buarque, a equipe agiu como a moça que levou junto “o que me é de direito, arrancou-me do peito e tem mais”. “Não levou um tostão porque não tinha, não, mas causou perdas e danos”.
Essa foi a terrível sensação após o jogo do Brasil contra a Noruega. Vimos a seleção jogar sem arte, sem raça e sem coração, nos perguntando: onde ficou o estilo alegre e competitivo do selecionado, que, em Copas passadas, encantou torcedores e a imprensa mundial?
A dura realidade é que exportamos craques a outros continentes e importamos um técnico estrangeiro. Nós, que vivemos por aqui mesmo, não tivemos maiores recompensas. Depois da partida fatídica, sentimos uma frustração ao esperar, talvez, um hexacampeonato que nunca vem.

É bom lembrar, também, que a mercantilização do futebol transformou o esporte em um negócio altamente lucrativo, em que o jogo passa a ser visto como um ativo financeiro. Nesse modelo, clubes operam sob lógica empresarial, jogadores se tornam mercadorias de alto valor e os torcedores são tratados como consumidores.
Em mais uma situação desagradável nesta Copa, tivemos que “engolir o sapo” do presidente Donald Trump, que mandou um torpedo ao dirigente da Fifa, Gianni Infantino (no cargo desde 2016), “pedindo a anulação do cartão vermelho” aplicado corretamente ao jogador estadunidense Balogun pelo juiz brasileiro. Infantino aceitou a encomenda.
Trump já havia imposto condições à concessão de vistos para os jogadores do Irã, país com o qual os Estados Unidos vêm travando uma guerra sem justificativas. Ainda exigiu que os atletas deixassem o território americano tão logo terminassem as partidas.
O ataque às regras do futebol causou revoltas. E a Fifa se submeteu a isso. Mas, por um acaso do destino, a Bélgica venceu os Estados Unidos por 4 a 1 em Seattle, eliminando-os do torneio. Caso contrário, o mau exemplo seria ainda mais grave.

Infelizmente, nada foi surpreendente. Se Trump tem desrespeitado o direito internacional em situações envolvendo populações inteiras e a soberania de seus países, por que seria diferente em relação ao futebol? Mesmo que ele não entenda nada do esporte, como chegou a admitir.
Mas, na pergunta que ecoa fortemente, como vamos recuperar os nossos sonhos? Parece haver, por enquanto, mais “pedras no caminho” do que soluções. Recomenda-se que é melhor dar um tempo do que só reclamar. Se a convocação de jogadores brasileiros para a próxima Copa priorizar o amor pela camisa, além da qualidade técnica, a situação pode mudar? Ainda se espera que, nos países que serão sede da Copa de 2030, presidentes ajam dentro de seus limites. Será que a Fifa vai ter uma postura firme de não aceitar pressões ilegais? Nessa nova realidade valerá a pena acompanhar o torneio