Havia, entre nós, brasileiros – mas falo por mim, é claro – algum medo de que o bicampeonato sucessivo da Argentina nos levasse, de uma vez por todas, a fazer com receio e tristeza a pergunta que não queria calar: Messi ficou maior do que Pelé? Com a suposta conquista em Nova Jersey, com o que havia feito até afinal, o canhoto camisa 10 pediria passagem. Maradona, o genial Maradona, ele de fato deixou para trás – ainda que para muitos, como para mim mesmo, o mercurial campeão de 1986 fosse capaz de oferecer La Mano de Diós e o mais espetacular gol de todos os tempos, como fez contra a Inglaterra, em doses de idêntica irreverência. Mas e Pelé? É um privilégio, e uma beleza, termos visto Messi durante tanto tempo, em seis Copas, no Barcelona, pouca coisa no PSG e quase nada no Inter Miami. Agora em 2026, até a derrota para a Espanha na finalíssima, fez milagres – e tirou do fundo do poço uma Argentina que parecia humilhada, contra Egito, Cabo Verde, Suíça e Inglaterra. Mas havia Messi.

Hoje não houve – embora nos minutos finais do embate ele tenha reaparecido, depois de uma partida ruim. Messi termina a Copa do Mundo na vice-artilharia, com 8 gols, dois atrás de Mbappé. O francês tem 22 ao total, em três mundiais. O argentino, 21. Muito provavelmente terá sido seu último tango. Gracias, Messi. Obrigado, e que o choro do pequeno gênio ao canto da torcida albiceleste siga nos emocionando.

Mas vai aqui, enfim, a resposta à pergunta que deflagrou esse texto a um só tempo saudosista, melancólico e com um quê de desfeita, sim: Messi não é maior do que Pelé. Antes de mais nada, a frieza da estatística em Copas: Pelé ergueu a taça três vezes, ainda que em 1962 tenha feito uma única partida. Messi ergueu uma vez só, e em duas bateu na trave: em 2014, com a derrota para a Alemanha e, agora, para a Espanha. É verdade, Messi foi o melhor jogador da Copa de 2014, o Bola de Ouro. Recebeu o troféu também em 2022. Agora era para ser dele, embora tenha ficado com o espanhol Rodri.

Recupero aqui trecho do definitivo texto do jornalista escocês Andrew Downie, escrito com exclusividade para VEJA: “Quando comecei a escrever minha biografia de Pelé, em 2017, o plano não era produzir um manifesto declarando-o o maior de todos os tempos. Mas o livro, intitulado Epic: the Many lives of Pelé, pode ser considerado uma defesa, um documento a ser apresentado sempre que seus feitos forem menosprezados. Muitos dos que declaram Messi o maior de todos não faz ideia do que Pelé fez e do contexto em que o fez. Messi precisa ser respeitado. Ele é um candidato real ao título de maior de todos os tempos. Se vencer uma segunda Copa do Mundo seguida contra a Espanha, terá alcançado um novo patamar, e o terá feito com estilo, alma e raça. Mas, antes de comparar os dois, é preciso conhecer a história. É preciso conhecer o contexto, as nuances, o pano de fundo e a cultura. A história importa. Mesmo que esteja sempre mudando.”

Messi é extraordinário. Se foi maior que Maradona, bola com os argentinos, problema deles. Maior que Pelé, não foi. E a imagem do rei do futebol no intervalo da final, o “love, love, love” no telão do estádio de Nova York ajuda a emoldurar a resposta da pergunta que tínhamos medo de fazer. De Pier Paolo Pasolini: “No momento em que a bola chegou aos pés de Pelé, o futebol se transformou em poesia”. Ou de Nelson Mandela: “Vê-lo jogar era como ver a alegria de uma criança combinada com a extraordinária graça de um adulto”. E que essas duas definições ecoem infinitamente, com o que têm de bonitas, ao som infindável das vaias recebidas por Donald Trump no domingo do fim da maior das Copas. Viva o Pelé!