O projeto do futebol moderno é tornar o jogo previsível. Quem tem a bola controla o ritmo da partida, reduz as chances de sofrer contra-ataques e troca passes até que um atacante esteja em condições de finalizar.

A bola deve circular, de um lado para o outro, até abrir um espaço para a conclusão. É daí que vem a obsessão por estatísticas como passes certos, posse de bola e ocupação de zonas, onipresentes nas transmissões esportivas.

O drible, o passe arriscado, a jogada de improviso — tudo que só funciona uma vez a cada 4 ou 5 tentativas — aparecem como "erro" nessas estatísticas. Disso decorre um futebol de toques curtos e triangulações, apelidado de "tiki-taka" em sua versão mais extrema, até criar uma oportunidade que compense o risco da finalização.

Esse estilo ganhou força com Guardiola e se espalhou pelo futebol. A média de passes por partida era de 753 na Copa de 1966 e ultrapassou 900 nas últimas Copas. E as tentativas de drible caíram de 65 por jogo, em 1978, para 27 na Copa do Catar.

Na atual edição da Copa, seleções como Alemanha, Bélgica, Espanha, Holanda, Inglaterra e Portugal adotam, em maior ou menor grau, variações desse modelo. O que chamou atenção foi a dificuldade que tiveram contra seleções, em tese, bem menos poderosas, como Cabo Verde, Congo, Japão, Irã e Paraguai.

Ficou claro que os demais treinadores aprenderam a montar blocos defensivos compactos o bastante para travar esse tipo de jogo. Carlos Queiroz, treinador de Gana, é o melhor exemplo disso.

Junto a isso, houve uma clara evolução física. Os adversários correm mais e fecham espaços mais rapidamente. Mesmo quando alguém recebe entre as linhas, os zagueiros conseguem se recuperar antes que a jogada avance.

Como outro lado da mesma moeda, isso explica o bom desempenho de Argentina, Colômbia, França e Marrocos. Seleções que apostam na mobilidade atraem o adversário para um lado e atacam o outro, esvaziam e preenchem espaços, puxam atacantes para costurar o jogo.

Quando os sistemas se anulam, é preciso dar liberdade aos jogadores capazes de rompê-los. Lautaro Martínez, Luis Díaz, Ismael Saibari e Michael Olise — todos mostrando que o jogo ainda depende, em seu mistério mais profundo, de criatividade e coragem de assumir riscos. O oposto do que acontece com Lamine Yamal, por exemplo, domesticado pela rigidez esterilizante do esquema espanhol.

Fato é que as melhores seleções desta Copa se destacam pelas aproximações, jogadas individuais e movimentos sem a bola (como o corta-luz de Almada no gol de Messi contra a Áustria). Estamos retornando a um futebol menos preso ao sistema e mais atento às singularidades dos jogadores?

Que isso ocorra justamente quando Messi e Cristiano Ronaldo estão prestes a se aposentar, é prova de que os deuses estão abrindo caminho para uma nova geração de gênios. 
 

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