Já escrevi e falei isso tantas vezes. E certamente irei falar outras tantas.

Todos os meus pensamentos correram para isso quando França x Paraguai acabou e um debate feroz se iniciou.

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Era uma ode ao Paraguai, alçado a utopia e símbolo da Pátria Grande possível. O sonho de Bolívar redivivo, os defensores del chaco dizendo presente para nos restituir a glória.

O canto dos espoliados, Taiguara, Mercedes Sosa e Silvio Rodrigues numa zaga inexpugnável, a resistência ao ataque do colonizador.

De repente, textos em profusão com uma sentença: quem não entendeu isso ou teve a mesma leitura, não entende nada sobre esse jogo. Muito mais: não entende nada sobre a vida.

Era Guimarães Rosa torcido até virar o que vira uma história quando se repete: uma farsa.

Parece que entenderam errado o sentido da vida querer coragem da gente.

Talvez tenha faltado Caetano irromper o debate para gritar: "vocês não estão entendendo nada".

Faltou Caetano falar que sempre que ganhamos desse colonizador nas quatro linhas foi pelos hermetismos pascoais da bola com seus tons e seus dons geniais e não por tapas, simulações e cotovelaços.

Nunca ganhamos do lado de cima do Equador dando tapa, tiro, porrada e bomba.

É assim desde que Pastinha e Bimba ensinaram como drible para ganhar do colonizador. Aquele que trouxe a bola debaixo do braço e perdeu a receita por aqui.

É dele não só a mais poética explicação do que são nossas veias abertas mas também a didática milimétrica para contar como o Uruguai de 50, o time considerado como maior exemplo de coragem e virtude de todos os tempos, deu a maior aula de coragem da história do futebol.

Foi ele que sintetizou os fatos daquele Brasil x Uruguai da Copa de 50.

Enquanto as redes sociais de outrora exaltavam o tapa de Obdulio em Bigode, o tapa que nunca houve e foi criação abjeta da mente de racistas para criminalizar outro preto além de Barbosa, o maestro uruguaio nos contou com breves palavras o que aconteceu em campo. Muito mais do que isso: explicou como uma mentira sobre uma falsa valentia virou ato fundador de um fracasso de décadas.

Foi a partir do mito do "Uruguai valente que por isso ganhou a Copa de 50" que o país vizinho caiu num buraco de anos. Porque achava que futebol era tapa na cara.

"O Uruguai ganhou quando estava perdendo graças à coragem. E cometeu a metade das faltas do Brasil. Naquele tempo, não confundíamos a coragem com as patadas e jogo sujo". Zizinho corroborava a tese. O Uruguai ganhou porque tinha mais time e jogou mais bola. Ponto.

De sua mesa fixa no Café Brasilero de Montevideu, que, tal como a mesa de Hemingway na Bodeguita não podia ser tocada sem seu convite, adorava falar sobre o tema.

Tinha profundo asco da herança maldita daquela crença de que o Uruguai teria conquistado uma Copa por sua virilidade, rasteiras e tapas que tanto mal fez ao seu país e por tanto tempo mutilou o DNA futebolístico de um país.

Foi nessa mesa que esse mui humilde reportero ouviu isso dele pela primeira vez