Várias perspectivas sobre o ser humano, na área da cultura, história, biologia, psicologia, psicanálise, e até religião, apontam a violência como fator intrínseco de cada um de nós, nem que seja de maneira potencial. A explicação viria de milênios de pelejas com inimigos, até nos estabelecermos. Pela chamada sociobiologia, por exemplo, sem agressividade na ocupação de territórios e proteção das famílias, não sobreviveríamos. Outras espécies nos teriam subjugado ou destruído.

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O processo civilizatório, através dos séculos - nos ensinou o sociólogo alemão Norbert Elias - obrigou-nos a nos enquadrarmos em regras e rituais ao invés de resolvermos tudo na base da ação bruta. Daí surgem as forças de segurança, as instituições, a democracia, os direitos fundamentais e até mesmo as regras de etiqueta. Para nos comportarmos melhor.

Uma consequência, se a gente examina as estatísticas, é que vivemos em um mundo muito mais seguro. Esqueça essa história nostálgica de um passado de paz, que embala o sonho dos reacionários. Hoje, apesar das aparências, o mundo vive um dos períodos com menor taxa de assassinatos de sua história. Continua na dúvida? Passe os olhos no livro “Os anjos bons da nossa natureza”, do psicólogo cognitivo canadense Steven Pinker, com uma quantidade fenomenal de dados para sustentar a tese em cerca de mil páginas.

As guerras e conflitos violentos continuam, mesmo que em proporção menor, historicamente. Redes sociais exibem desavenças a cada segundo. Meios de difusão fazem as notícias com informações ruins circularem de maneira mais veloz do que eventuais avanços e pacificações que podem ocorrer ao redor do mundo.

Mas, mesmo sob a capa civilizatória e das repressões da polícia, das leis, das convenções sociais, o mesmo humano continua. E hoje não saberia muito bem o que fazer com sua combatividade inata.

Daí a importância dos jogos, das grandes competições esportivas como a Copa do Mundo atual. Temos inimigos, exércitos em disputa, bandeiras, heróis, vilões, gritos de guerra, mas é tudo de mentira (fora para aqueles que não evoluíram e seguem como se as pelejas fossem reais). A vida posterior aos jogos segue mesmo com as vitórias e derrotas, apenas com mais alegria ou tristeza, a depender dos resultados