Adepto confesso de futebol, o autarca de Nova Iorque tentou politizar o torneio, com uma mensagem a favor da classe trabalhadora e dos imigrantes. Mas o impacto foi limitado.

O jogo era o Inglaterra-Argentina. Em Rikers Island, a maior prisão do estado de Nova Iorque, mais de 100 presos vestidos com uniformes bege estavam reunidos no ginásio, para assistir à partida num grande televisor ladeado por balões. O pontapé inicial ainda não tinha sido dado quando um homem em mangas de camisa entrou e se sentou numa das mesas. Não era um preso, nem um guarda: era Zohran Mamdani, o presidente da Câmara de Nova Iorque.

Mamdani conversou com alguns dos reclusos e saiu ao fim dos primeiros 20 minutos do jogo. De seguida, assinalou a ação de relações públicas no X: “Ao longo deste Mundial, temos sido recordados de uma verdade simples: o futebol pertence a todos.”

Throughout this World Cup, we have been reminded of a simple truth: football belongs to everyone. So does the joy and community it creates.

Yesterday, I joined New Yorkers on Rikers Island to watch England take on Argentina. We experienced… pic.twitter.com/yAKiW4UwFy

— Mayor Zohran Kwame Mamdani (@NYCMayor) July 16, 2026

Não foi um evento isolado. Ao longo destes mais de 30 dias da competição, o autarca aproveitou um e outro momento para se afirmar politicamente através do Mundial. Se o futebol não é o desporto mais popular nos Estados Unidos da América, é-o sem dúvida para Mamdani, que não hesitou em usar o torneio para promover a sua agenda. “O desporto e o futebol são muitas vezes descritos com uma linguagem de distração — como se estes fossem momentos passageiros para as pessoas se esquecerem das suas preocupações”, disse o mayor ao New York Times já o Mundial decorria. “O futebol, para mim, está no centro da forma como vejo o mundo.”

Tendo isso em conta, Mamdani criou várias fan zones gratuitas por toda a cidade e tentou fazer do evento desportivo um lugar de convívio e promoção de Nova Iorque. O que teve um efeito em alguns dos residentes, garante o professor de Políticas Públicas da John Jay College of Criminal Justice (em Nova Iorque) Heath Brown ao Observador: “Muitos nova-iorquinos querem saber do Mundial e seguiram cada minuto do torneio. Fizeram-no como qualquer outro adepto global: colados à televisão em casa ou num bar.”

Outros têm dúvidas do impacto do torneio na cidade: “Pelo menos na parte inicial do Mundial, acho que a maioria dos nova-iorquinos (e possivelmente o próprio Mamdani) estavam muito mais investidos na vitória dos New York Knicks no campeonato da NBA do que no Mundial”, diz Alan McDougall, professor de História do Desporto na Universidade de Guelph (Canadá).

Mas uma coisa é certa: com maior ou menor adesão dos habitantes de Nova Iorque, o jovem autarca que se define como um socialista democrático decidiu colocar o Mundial no centro da sua ação política. E, terminado o torneio, a questão impõe-se: Zohran Mamdani tornou-se num dos vencedores deste Mundial de 2026?

Recuemos a maio, menos de um mês antes de o Mundial arrancar. Mamdani faz outra aparição inesperada, desta vez no bar Fort Greene, em Brooklyn. Foi ali para apoiar a sua equipa, o Arsenal, na final da Liga dos Campeões contra o PSG. Entra e junta-se aos gritos de “Arsenal! Arsenal!”, ao som da música Human, dos The Killers. Traz uma camisola da equipa, com um blazer preto por cima, e acompanha o jogo com entusiasmo — menos no final, quando o Arsenal é derrotado pelo PSG nos penáltis.

▲ Mamdani é um conhecido fã de futebol e adepto do Arsenal

É um amor antigo: Mamdani é adepto dos Gunners desde pequeno, um amor que lhe foi passado por um tio quando ainda vivia no Uganda, em criança. Num artigo publicado no The Athletic em maio, escrito na primeira pessoa, o mayor explicou porque é que o clube inglês é tão importante para si: “Para nós que temos raízes africanas, o Arsenal representava algo maior. Este é um clube que abraçou jogadores africanos muito antes de a Europa se dar ao trabalho de enviar olheiros para o continente. Um clube que mandava jogadores para a Taça das Nações Africanas (CAN). Um clube onde jogadores da Nigéria, da Costa do Marfim e dos Camarões eram centrais na nossa história.”

A isso somava-se o encanto pelo treinador Arsène Wenger, “um homem que ao início eu achava que tinha esse nome por causa do clube e que depois achei que o clube é que tinha ficado com aquele nome por causa dele”. E o encanto de Mamdani por futebol não se esgota em Wenger: no mesmo artigo, recordou o festejo de Mario Balotelli com uma camisola que perguntava “Sou sempre eu porquê?”; à GQ, lembrou o golo de Samir Nasri contra o FC Porto na vitória por 5-0 do Arsenal contra o clube português na Liga dos Campeões, em 2010.

L’occasion de se rappeler de ce très BEAU BUT de Samir Nasri avec Arsenal contre Porto en 2010.

— Yacine Youssfi (@yacine_youssfi) February 21, 2024

Daí até Mamdani usar o futebol para promover a sua agenda política foi um passo. “Isto só funciona de forma tão eficaz porque Mamdani adora desporto, quer sejam os Knicks ou o Arsenal”, nota o professor McDougall. “Ele parece uma voz autêntica, alguém com quem se pode falar num bar ou num festival sobre as controvérsias do VAR, as razões para a tímida derrota de Marrocos contra França, etc.”

Mas quando se lida com um político que é também um adepto apaixonado, surgem sempre fraquezas. Em março, o autarca teve uma reunião com o presidente da FIFA, Gianni Infantino, para tratar da preparação para o Mundial. Mamdani entrou em força, com críticas à organização pelos preços elevados dos bilhetes. Mas Infantino trazia uma carta na manga. A certa altura, fez uma chamada em FaceTime e passou o telemóvel ao mayor: do outro lado estava Arsène Wenger, atual chefe do departamento de Desenvolvimento do Futebol Global da FIFA.

Mas o telefonema com Wenger não foi suficiente para Zohran Mamdani recuar na sua agenda de críticas à FIFA pelo preço dos bilhetes. “Queremos que este seja o Mundial onde muito mais pessoas se apaixonaram pelo jogo — não apenas o Mundial a que algumas pessoas conseguiram ir”, justificou o autarca.

Em causa estavam os chamados preços dinâmicos introduzidos pela FIFA, onde um bilhete para a final chegou a custar mais de 30 mil dólares. Mamdani conseguiu mil bilhetes para a Câmara de Nova Iorque, que foram revendidos a 50 dólares. E o mayor enquadrou o acordo como uma vitória contra “a comodificação do desporto”, que o torna “em mais um produto de luxo”, como definiu numa entrevista à BBC. Para além dos bilhetes, a autarquia organizou autocarros de Nova Iorque para o MetLife Stadium (em Nova Jérsia) a 20 dólares por bilhete, para servir de alternativa aos bilhetes de comboio a 150 dólares