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Capa da versão independente de 'Te Vejo na Final', livro que imagina um romance gay na Copa do Mundo -
Vitor Fubu/Divulgação
Uma Copa do Mundo dos gays. Não o Grammy ou um show da Madonna, mas o torneio de futebol mesmo, que na edição deste ano virou pano de fundo de livros, programas e festas que usam símbolos e referências da cultura pop LGBTQIA+ para ressignificar não apenas o Mundial, mas todo o ambiente esportivo, do qual esse grupo é historicamente excluído.
É o que fazem os romances "Os Dois Tempos de Beto Garcia" e "Te Vejo na Final", que em sua utopia imaginam jogadores se apaixonando por outros rapazes nos gramados da Copa deste ano, dividida entre estádios dos Estados Unidos, do México e do Canadá.
Mais pé no chão —mas nem tanto— é o programa Camisa 24, no YouTube, em que influenciadores comentam ao vivo os jogos do Brasil com piadas pensadas para o público LGBTQIA+. Na estreia do Brasil, na partida contra o Marrocos, por exemplo, a atração começou com um debate sobre o prazer de "levar uma bolada".
Em paralelo, no Instagram, um rapaz "traduz" regras do futebol para gays. Na página Futebicha, ele explica, por exemplo, a divisão de jogos da Copa com analogias ao reality de drag queens RuPaul's Drag Race. Os times eliminados, ele diz, "dão sashay away" —citando a frase que a dona do programa usa para mandar embora as perdedoras, hoje um bordão da comunidade LGBTQIA+.
Há, ainda, bares que organizam transmissões das partidas em eventos voltados ao público LGBT. É o caso do Bandeira Bandeira, casa em São Paulo para mulheres lésbicas e bissexuais, e do karaokê Toca Uma pra Mim, que misturou verde e amarelo às cores do arco-íris em sua decoração.
Boa parte do público vai às festas com roupas de "sportcore", estética que tenta tornar fashion peças esportivas, e que virou tendência entre muitos homens gays.
Embora essas jogadas representem um avanço na relação entre a comunidade LGBTQIA+ e o futebol, elas ainda ocorrem "em terreno movediço", diz Marco Bettine, professor e vice-coordenador do Ludens, grupo da Universidade de São Paulo, que estuda o futebol como fenômeno cultural e político.
"A sociedade só está aceitando porque o público LGBT tem lutado por esse espaço depois de apanhar", ele afirma. "Essa é a Copa do Mundo das redes sociais e dos algoritmos, em que várias vozes vão construir as narrativas. A gente não vai ficar restrito à do homem branco."
É um movimento cultural que vem após duas Copas especialmente polêmicas nesse sentido, ele lembra. Em 2022, o evento tomou o Catar, país que criminaliza as relações homoafetivas e que proibiu a bandeira LGBTQIA+ nos estádios. Com o aval da Fifa, a nação árabe reprimiu quaisquer manifestações à comunidade queer. Quatro anos antes, a Copa foi na Rússia, que proíbe o que chama de "propaganda de relações sexuais não tradicionais" —ou seja, aquelas não heterossexuais.
Além disso, nunca um jogador homem que já foi à Copa declarou ser LGBTQIA+ enquanto estava em atividade. Os únicos dois atletas com passagem pelo Mundial que saíram do armário o fizeram depois de se aposentar foram o francês Olivier Rouyer e o alemão Thomas Hitzlsperger. No Brasil, o ex-volante Richarlyson afirmou ser bissexual em 2022, também depois de pendurar as chuteiras.
Foi no clima nada amistoso da Copa do Catar que o sergipano Ayslan Monteiro lançou "Te Vejo na Final", que narra como um jogador gay tem de ir ao torneio rodeado de colegas homofóbicos e sem a adesão de patrocinadores. O livro saiu de forma independente em 2022 e, há dois anos, ganhou uma edição nas livrarias pela Harlequin.
Convencer a editora de que daria certo misturar gays e futebol não foi difícil, mas conseguir leitores, sim, diz Monteiro. "O público heterossexual, maioria que consome futebol, não se interessa por histórias LGBTQIA+. E esse público, por sua vez, vê futebol e pensa: ‘não é para mim’. Caí num limbo."
Tramas assim ainda estão ocupam uma prateleira diminuta. "Apito Final", lançado pela brasileira Rafaela Silva em 2022, narra os dramas de um jogador convocado à Copa que é gay e assexual. Já o americano "Jogando no Seu Time" apresenta um relacionamento lésbico na seleção de futebol feminino.
Monteiro precisou esperar até a estreia desta Copa para ver as vendas do seu livro crescerem. De certa forma, ele se aproveitou agora da popularização dos "sports romance", que narram amores em ambientes esportivos e tomaram o mercado literário no ano passado. Lá fora, histórias com jogadores de hóquei são as favoritas do público.
Não surpreendeu, portanto, o sucesso de "Rivalidade Ardente", em que dois atletas desse esporte vivem um relacionamento gay às escondidas. Canadense, o título chegou este ano ao Brasil e virou também uma das séries de TV mais comentadas por causa das cenas de sexo quase explícitas.
Foi nessa onda que surfou também o escritor e influenciador Luca Guadagnini, que viu na Copa do Mundo uma chance de tropicalizar a jogada. "Os Dois Tempos de Beto Garcia", lançado neste mês pela editora Seguinte, narra como atletas apaixonados na juventude se reencontram nas partidas da Copa