“A família é o lugar do encontro, da partilha, da saída de si mesmo para acolher o outro e estar junto dele. É o primeiro lugar onde se aprende a amar” (Papa Francisco na sua homilia na Missa de encerramento do seu X Encontro Mundial)

É impossível observar o futebol contemporâneo sem notar que suas maiores estrelas trazem consigo bagagens que ultrapassam de longe as quatro linhas dos gramados. 

Recentemente, fomos testemunhas da corajosa e necessária postura de apoio do jovem Lamine Yamal ao povo palestino – uma voz firme de oposição às agressões e ao genocídio praticados contra aquela população. Lamine, jovem preto, de origem humilde, muçulmano, filho e neto de imigrantes, carrega uma trajetória cuja potência e profundidade são verdadeiramente dignas de um filme. Retomarei em outro momento a impressionante história da família do jovem prodígio.

Hoje, contudo, quero compartilhar com o leitor a história de outro jovem cuja vida foi forjada em meio a sacrifícios inimagináveis: Nico Williams, o jogador que deu a assistência de cabeça para que Ferran Torres fizesse o gol do título espanhol.

A história de Nico não começa nas categorias de base espanholas, mas no calor escaldante do deserto do Saara. 

Na década de 1990, seus pais, María Comfort Arthuer e Félix Williams, tomaram a dramática decisão de deixar Gana em busca de uma oportunidade de sobrevivência e dignidade no continente europeu. Sem recursos e após serem roubados no caminho, o casal atravessou grande parte do deserto a pé e descalço. María realizou essa travessia sobre-humana enquanto carregava no ventre o primeiro filho do casal, Iñaki Williams. 

Ao chegarem ao enclave espanhol de Melilla, no norte da África, a família enfrentou o medo da deportação, superado apenas graças à solidariedade de um advogado e de um padre católico, de nome Iñaki Mardones, que estenderam a mão para que pudessem se estabelecer no norte da Espanha. Anos mais tarde, em Pamplona, nascia Nico. 

Mesmo após a chegada à Europa, os desafios continuavam enormes. 

Enquanto o pai precisou trabalhar como segurança no exterior para enviar dinheiro, a mãe desdobrava-se em três empregos para sustentar a casa. Coube a Iñaki, o irmão mais velho, exercer quase um papel paterno, cuidando de Nico e levando-o aos treinos de futebol. 

Hoje, Nico e Iñaki Williams brilham nos maiores palcos do futebol mundial, especialmente no Athletic Bilbao. 

Mas o brilho das conquistas de Nico – como a entrega de sua medalha de campeão à mãe, logo após a premiação – não oculta a realidade de onde veio. Ao lado de nomes como Lamine Yamal, Nico e Iñaki representam o rosto de uma Europa diversa e descentralizada, mas, acima de tudo, o triunfo do amor de pais que arriscaram tudo. 

Sim, esse artigo é sobre diversidade e sobre família.

Compreender a trajetória de jovens como Nico e Lamine é perceber que o futebol, antes de ser um espetáculo esportivo, um negócio rentável e perigoso, é uma caixa de ressonância da humanidade, da resistência e da busca incessante por justiça e dignidade, por isso é tão importante a família, em suas diversas formas contemporâneas, pois, a família é onde a criança aprende a se relacionar, vai aprender limites, desenvolver sua personalidade, descobrir seus gostos, consciência e receber amor, carinho, afeto. 

Acredito que é na família a principal fonte de desenvolvimento da criança. Algumas famílias têm arranjos diferentes, a criança pode ter um padrasto ou madrasta, ser criada por avós, tios, ou até mesmo por uma família que não seja a sua de origem, com duas mães ou dois pais. O importante é que, independentemente de onde a criança cresça, ela receba muito amor e que toda caminhada da infância seja capaz de forma adultos com consciência de classe.

A história de Nico Williams, seu irmão – que joga pela seleção de Gana -, e suas famílias, é inspiradora. 

Essa história nos remete ao ensinamento do Papa Francisco de que “A família é o lugar do encontro, da partilha, da saída de si mesmo para acolher o outro e estar junto dele. É o primeiro lugar onde se aprende a amar.”.

Um viva às famílias de Nico e Iñaki Williams e de Lamine Yamal, que oferecem ao mundo jovens que, além de bons jogadores, são exemplos de cidadania e consciência.

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