Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017

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Se a história do Brasil não começou com a chegada de Vicente Pinzón em janeiro de 1500 ou de Pedro Álvares Cabral alguns meses depois, então a cultura da bola no Brasil também não começou com Charles Miller em 1894. Entre os povos indígenas do atual território brasileiro havia, muito antes da chegada do futebol moderno, jogos competitivos com bola.

Um dos exemplos é o jikunahati, também conhecido como xikunahity, jikyonahati, ajaīlypypy, ou simplesmente cabeçabol. É praticado, ainda hoje, por povos indígenas do Mato Grosso, como os Paresi, Manoki, Nambikwara e Enawenê-Nawê. A bola, de 12 a 14 centímetros de diâmetro, é feita cerimonialmente da seiva da mangabeira e não é chutada, mas cabeceada.

Para os Paresi, segundo a Funai, o jikunahati tem origens remotas. O lendário Wazáre, o primeiro Paresi, saiu de uma fenda numa rocha e ensinou ao seu povo as regras da vida. Antes de regressar ao seu mundo, distribuiu os Paresi pelas suas terras e organizou uma grande festa de confraternização. Foi nessa ocasião que teria criado o jikunahati. Por isso, o jogo pertence a uma esfera mais ampla do que a competição; entre os povos que o praticam, combina espiritualidade, memória e vida comunitária. Tradicionalmente, era jogado em festas da primeira colheita e em cerimônias de iniciação.

A superfície onde se joga jikunahati é geralmente de terra batida ou arenosa. O campo lembra, em tamanho, um campo de futebol, embora tenha uma marcação mais simples, limitada à linha central que separa as duas equipes. As imagens do jogo podem ser vistas nesta reportagem da Globo de 2014.

O jikunahati inverte a nossa leitura futebolística. No futebol moderno, sobretudo no imaginário brasileiro, o jogo é escrito com os pés. Cada drible é um ponto e vírgula; cada aceleração, um ponto de exclamação; cada chute, um ponto final. Mas na tradição dos povos que jogam jikunahati é a cabeça que decide, equilibra e conduz. O corpo inteiro participa, mas é a cabeça que governa o movimento.

Quem ficou fascinado com este jogo de bola brasileiro foi Theodore Roosevelt. Em 1913, depois de deixar a presidência dos EUA, Roosevelt percorreu o interior do Brasil na Expedição Científica Roosevelt-Rondon. No Mato Grosso, encontrou os Parecis —grafia usada pelo americano— e assistiu a um jogo que descreveu como "football with their heads".

No livro "Through the Brazilian Wilderness", que escreveu sobre a viagem, Roosevelt salienta as semelhanças com o futebol moderno ("The players are divided into two sides, and stationed much as in association football, and the ball is placed on the ground to be put in play as in football"), mas destaca o caráter autóctone deste esporte ("I have never heard or read of its being played by any other tribe or people").

Antes de Roosevelt, o etnólogo alemão Max Schmidt já havia descrito o jogo entre os "Paressi-Kabishi", que observara numa expedição realizada em 1910. O relato foi publicado em 1914 na revista Baessler-Archiv, uma das publicações científicas de referência em etnologia. A fotografia que acompanha o artigo, hoje preservada no Ethnologisches Museum de Berlim, talvez seja o primeiro registro visual conhecido desse jogo indígena brasileiro.

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Não foi o jikunahati que deu origem ao futebol que conhecemos hoje. O futebol moderno é uma invenção do século 19, codificada em colégios de elite ingleses, e depois profissionalizada, globalizada e transformada em indústria. Os indígenas brasileiros que chegaram ao futebol profissional, como Iraçanã (José Sátiro do Nascimento), do povo Xucuru-Kariri e ex-Corinthians, também não começaram a carreira jogando jikunahati.

O ponto é outro. Antes de o futebol moderno inglês se tornar canarinho, já existia no território brasileiro uma cultura própria do jogo com bola, à margem do olhar estrangeiro. A famosa partida entre os funcionários da São Paulo Gaz Company e da São Paulo Railway Company (time de Charles Miller), disputada no Brás, em São Paulo, não inaugurou a relação do Brasil com a bola.

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