Ex-jogador foi agenciado por um dos maiores empresários do mundo, mas largou o futebol sem confirmar as expectativas e precisou se reinventar

Promessa do Inter no começo da década passada, Lucas Roggia chegou ao Milan e conviveu com estrelas como Ibrahimovic e Thiago Silva. A carreira, porém, não se confirmou, muito por conta das lesões. Após se aposentar, enfrentou um diagnóstico de depressão. Hoje, longe dos gramados, atua como investidor no litoral norte do Rio Grande do Sul.

Roggia chegou ao Inter aos 12 anos, após destaque no Encontro de Futebol Infantil Pan-Americano (Efipan), em Alegrete, no Rio Grande do Sul. O desempenho na base o colocava como uma das principais promessas para seguir a linhagem que revelou nomes como Nilmar, Rafael Sobis, Luiz Adriano e Alexandre Pato.

A expectativa era tanta que Léo Ferreira, atual agente de Roger Machado, o indicou junto com João Paulo a Mino Raiola. O empresário, que morreu em 2022, era um dos mais influentes do mundo e representou nomes como Ibrahimovic, Haaland, Pogba e Balotelli.

Além de trabalhar com nomes de relevância, o agente era conhecido pelo estilo durão nas negociações. Veio a Porto Alegre em 2009 para buscar a renovação dos garotos que ainda atuavam no time sub-20.

Os valores pedidos foram considerados altos, e um imbróglio com o Inter teve início. O relacionamento de Raiola nos maiores clubes do mundo preocupava a direção colorada, mas Lucas Roggia não pretendia prejudicar o time do coração.

— Ele pediu valores e o Inter disse que não pagaria. Estava para ir para Inter de Milão ou Ajax. Toda minha família é colorada e eu também. O Giovanni Luigi ainda não era o presidente, mas conversou com o Mino para apaziguar e fecharam o contrato — recorda o ex-jogador.

Com contrato renovado, Roggia passou a ter um salário de profissional, mesmo que ainda estivesse na base. O ex-atacante recorda que dirigentes esperavam que a renovação o fizesse mudar de agente. Algo que nunca passou pela sua cabeça.

— Nossa relação era de pai e filho. O Mino era muito bom, com pulso firme. Falava o que vinha na cabeça. Ele era uma espécie de popstar. As brigas com o Inter foram para buscar o melhor para nós — explica.

O empresário, ao perceber que Lucas Roggia estava sem espaço no Beira-Rio, conseguiu um empréstimo do garoto ao Milan. Na Itália, o jovem atacante conviveu com outras tantas estrelas: Ibrahimovic, Robinho, Thiago Silva, Kevin Prince Boateng, Gattuso, Zambrotta, Pato e Cassano. Com os dois últimos, estreitou relação.

— Foi uma experiência surreal estar com esses caras. Eu era bem próximo do Cassano, que me acolheu quando cheguei e era bem resenha. O Rodrigo (Ely), que jogou no Grêmio, me deu suporte, e o Pato pela amizade do Inter. Saía também com o Juan Jesus, que estava na Inter de Milão. Eu namorava e ele estava com a esposa. Era meu parceirão — conta.

O gaúcho não chegou a atuar no time principal. Defendeu o Milan B, mas lembra com orgulho o período em que dividiu vestiário com as estrelas.

Muitos desses jogadores ele só conhecia pela televisão até enfrentá-los na Copa Audi, um ano antes. Na ocasião, o Inter empatou em 2 a 2 e venceu o Milan por 2 a 0 nos pênaltis na disputa pelo terceiro lugar. No dia anterior, esteve em campo no empate pelo mesmo placar com o Barcelona (com derrota por 4 a 2 nos pênaltis), quando se encantou com o talento de Iniesta.

— O mais impressionante foi o Iniesta. Que jogador! Foi uma competição muito bacana, com a Allianz Arena lotada. Foi um momento de desfrutar.

No torneio, Fernandão iniciava a trajetória como diretor técnico. O Eterno Capitão se aproximou de Zé Mário, João Paulo e Lucas Roggia e buscou dar dicas tanto em campo quanto fora como se fosse um "paizão".

O ex-camisa 9 não foi o único a ajudá-lo no Beira-Rio. Antes do retorno de Fernandão, Falcão o fixou no grupo principal e trabalhou para que aprimorasse questões técnicas.

— No momento, você treme. Era o rei, né? Fazia treinos específicos e era muito técnico. Me explicava como correr, fazer o facão, como agir quando estava marcado. São toques que fazem toda a diferença. Uma pena que não pude ter muito tempo com o Falcão. Acho que se tivesse ficado, eu teria mais oportunidades. Ele gostava muito da base — acredita.

Após as passagens por Inter e Milan, o atacante rodou por Twente (Holanda), Beira-Mar (Portugal), Juventude, Passo Fundo, São Paulo-RS, Pelotas e Cianorte-PR.

Desde a passagem por Portugal, sofreu com lesões, que o impediram de ter sequência e chamar atenção de clubes maiores. A frustração o fez refletir e encerrar a carreira de forma precoce.

— O jogador sai de casa aos 12 anos, chega a grandes clubes por volta dos 20, mas depois precisa atuar em equipes menores, sem sequência. As lesões limitaram a sequência, enquanto os clubes tinham menos recursos. Me considero inteligente, gosto de estudar e achei que fosse o momento certo — lembra