A semifinal entre Espanha e França representa uma nova realidade do futebol mundial. Enquanto Brasil, Alemanha e Itália colecionam fracassos nas últimas edições da Copa do Mundo, essas duas seleções emergiram como as grandes potências deste século e decidem hoje, a partir das 16h (horário de Brasília), qual será o modelo de futebol mais bem-sucedido do torneio.

São duas escolas bem diferentes. Enquanto os espanhóis pregam o jogo coletivo que conquistou três Eurocopas (2008, 2012 e 2024) e a Copa do Mundo de 2010, os franceses buscam a sua terceira final consecutiva do Mundial (foi campeã em 2018 e vice em 2022) apostando nas individualidades de um trio ofensivo que tem sido comparado aos velhos tempos do Brasil.

Atual melhor do mundo pela Fifa (Federação Internacional de Futebol) e Bola de Ouro pela "France Football", Ousmane Dembélé forma o ataque com Kylian Mbappé e Michael Olise, outros dois atletas que figuram na primeira prateleira do futebol e que mostram como a França se tornou um dos principais centros de formação de talentos do planeta.

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"A França se beneficia desse celeiro infinito e incomparável de talentos na região de Paris, especialmente nos subúrbios. Há cerca de 60 jogadores nesta Copa do Mundo que cresceram em Paris e arredores. Isto é simplesmente incrível. Os jogadores franceses são quase os novos brasileiros agora. Eles melhoram muito técnica e fisicamente em seus bairros, em campos pequenos onde o nível é extremamente alto e a competição é intensa", explicou Hugo Guillemet, repórter do jornal "L'Équipe".

Já a Espanha, além da estrela Lamine Yamal, tem seus alicerces no desempenho do meio de campo com Rodri, Fabian Ruiz e Dani Olmo. O estilo de jogo é menos burocrático em relação à geração de Xavi e Iniesta, mas a filosofia daquela equipe campeã de 2010 segue viva.

"Desde 2008, quando ganhou a Eurocopa, a Espanha tem um estilo próprio como o Barcelona do Guardiola. Hoje a Espanha é a única equipe que sempre domina e tem a posse de bola contra qualquer equipe. A Espanha ganha através do bom jogo. Não é igual ao Real Madrid, que pode ser campeão sem jogar bem, que consegue ser campeão europeu sem ganhar a liga nacional. A Espanha precisa jogar bem para ganhar", analisou Damià López, jornalista espanhol da RAC1.

Espanha e França chegaram ao Mundial como as principais favoritas ao título e confirmaram o status com a classificação para as semifinais. A ascensão das duas equipes também tem aumentado a rivalidade que antes se resumia ao basquete e handebol.

"Não temos medo da França. Se alguém teme alguém, isso é com eles. Nós os eliminamos da Eurocopa. Somos duas grandes equipes, as melhores do mundo. Vamos ver o que acontece em campo, mas não temos medo de ninguém", disse Lamine Yamal após a vitória da Espanha sobre a Bélgica nas quartas de final.

A Espanha venceu os últimos dois jogos contra a França, pela semifinal da Liga das Nações, em 2025, e na mesma fase pela Eurocopa, em 2024. Também levou a melhor na final da Olimpíada de Paris, com a medalha de ouro conquistada na prorrogação, por 5 a 3.

Apesar da rivalidade crescente, este será apenas o segundo jogo entre Espanha e França em Copa do Mundo. O primeiro encontro foi em 2006 e, assim como agora, teve provocações do lado espanhol em cima de Zinedine Zidane, que jogava no Real Madrid e tinha anunciado que se aposentaria ao fim da participação francesa naquele Mundial.

"A rivalidade começou 20 anos atrás, quando os espanhóis falaram que iam aposentar o Zidane. Eles amam esse tipo de provocação, amam falar antes dos jogos. Mas os franceses não gostam desse jogo, eles não entram na provocação", disse Guillemet.

"Espanha e França são países vizinhos com uma rivalidade histórica mais política e social que esportiva. Um jogo que marcou muito foi a final da Eurocopa de 1984, porque a Espanha era um país que dificilmente chegava às finais. E foi uma final traumática, com uma falha incrível do Arconada. A França sempre se sentiu superior à Espanha no futebol, mas agora tem deixado de ser assim", completou Damià.

Espanha e França devem continuar no topo do futebol mundial pelos próximos anos. A média de idade da Espanha e da França é de 26,9 e 27,1 anos, respectivamente.

Prestes a completar 19 anos, Lamine Yamal é o mais jovem da equipe, que ainda conta com Cubarsí, Pedri e Nico Williams, todos eles com menos de 25 anos.

Pela França, Kylian Mbappé, 27, é um dos mais experientes do grupo que tem uma base consolidada para, no mínimo, mais duas Copas.

"A França não está preocupada com o que vai acontecer após a era Mbappé. O país tem produzido incríveis jogadores todos os anos em todas as posições. A quantidade é tão grande que muitos jogadores estão optando em jogar por outros países, como Bouaddi (Marrocos), Mahrez (Argélia) e Mbaye (Senegal)", explicou Guillemet, que comparou o momento francês ao que o Brasil viveu no início dos anos 2000.

"Claro que tem um elemento de sorte em ter três dos melhores atacantes do mundo. Fora Haaland, Kane e talvez Yamal, ninguém hoje está no nível de Mbappé, Dembélé e Olise. É um sentimento como o do Brasil quando tinha Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo. Esta é uma comparação que se ouve com muita frequência na França", completou o jornalista francês.

Segundo o Transfermarket, a França tem o elenco mais valioso do torneio, com um plantel avaliado em 1,52 bilhão de euros (cerca de R$ 8,9 bilhões). A Espanha é a terceira, atrás da Inglaterra, com um grupo de 1,22 bilhão de euros (cerca R$ 7,14 bilhões)