A terra dos heróis do futebol — cito os meus: Romário, Alex, Adriano, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho — já não aplaude mais. Não por falta de vontade. Pintamos ruas, penduramos bandeiras, vestimos verde e amarelo. Mas, ao contrário de cabo-verdianos, suíços, egípcios e, mais recentemente, noruegueses, ainda carregamos o gosto amargo da eliminação nas oitavas de final da Copa do Mundo, enquanto nossos algozes seguem avançando.

Nossos heróis — ou deveriam ser — sequer desembarcaram no país. À exceção de Danilo, solitário, assim como o sentimento de cada brasileiro que torceu e não viu em campo aquele futebol arte que já nos levou à conquista de cinco títulos mundiais.

No almoço em família, em casa ou no boteco, fica a sensação de que a seleção brasileira poderia ter feito mais. Mas com quem? A pergunta permanece sem resposta e reforça o sentimento de desolação. Agora, resta admirar o futebol dos adversários. E a festa deles.

Na celebração mais viral até aqui, a tradicional remada viking na praça do Palácio Real reuniu 90 mil pessoas nesta segunda-feira."É simplesmente incrível ver todo o apoio que estamos recebendo e como o país inteiro está conosco. Tanta alegria, tantos sorrisos e uma atmosfera fantástica. É realmente maravilhoso", declarou o capitão da equipe, o meia Martin Ødegaard, à emissora pública NRK. Os noruegueses comemoravam a melhor campanha de sua história em Copas do Mundo: a classificação para as quartas de final. E tem mais.

Festa na Noruega após desembarque dos jogadores. FOTO: Rodrigo Freitas/APF

A Copa volta a reunir quatro seleções campeãs do mundo nas semifinais, algo que não acontecia havia 36 anos. Espanha, França, Inglaterra e Argentina disputam uma vaga na decisão. E, seja qual for o resultado, franceses, argentinos, ingleses e espanhóis já têm o apoio incondicional de seus torcedores.

As ruas de Madri, capital espanhola, começam a ser tomadas por torcedores da Fúria. Quem circulou pela cidade nesta terça-feira (14/7) relata que a camisa da seleção parece quase obrigatória para quem saiu de casa. Telões espalhados nos arredores do Santiago Bernabéu já dão a dimensão da importância da partida.

Não muito distante dali, em Paris, além das celebrações do 14 de Julho — data que marca a Tomada da Bastilha e simboliza a Revolução Francesa —, os franceses prometem uma grande festa com transmissão do jogo em telão ao ar livre, em La Caserne, apresentações de DJs, distribuição gratuita de comida e oficinas de personalização de camisetas.

Na outra semifinal, não faltará barulho. Argentinos e ingleses chegam embalados por torcidas que transformam arquibancadas em espetáculos. Os vizinhos já têm até um grito de guerra, entoado a plenos pulmões pelos jogadores no vestiário, reflexo do que ecoa nas arquibancadas.

Os ingleses seguem cantando "Wonderwall" ao lado de seus torcedores, quase como um hino. Se toda batalha tem sua trilha sonora, no futebol não seria diferente. E, como só pode haver um vencedor, para um deles o dia será de glória — o que não significa, necessariamente, o silêncio do outro.

Fato é que o primeiro finalista será conhecido nesta terça-feira (14). França e Espanha entram em campo às 16h (horário de Brasília), no AT&T Stadium, em Dallas.

Na quarta-feira (15/7), será a vez de Argentina e Inglaterra disputarem a outra vaga na decisão, também às 16h (horário de Brasília), no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta.

Aos brasileiros, resta admirar um futebol arte que já não é o nosso e assistir à festa — que sabemos fazer como poucos, mas, desta vez, não faremos — tomar conta de outras ruas, embalada por outros heróis