247 – A elitização dos estádios e os preços elevados adotados sob a gestão da FIFA afastaram torcedores de baixa renda da Copa do Mundo de 2026, enquanto a entidade projeta arrecadar um recorde de US$15 bilhões com o torneio disputado nos Estados Unidos, no México e no Canadá.
A receita esperada supera as estimativas iniciais da própria FIFA e intensifica as críticas ao modelo comercial adotado pela organização. O aumento da arrecadação ocorreu em uma edição marcada pela ampliação do número de seleções, pela cobrança de ingressos com valores elevados e pela exploração financeira do mercado oficial de revenda.
A principal contestação é que o crescimento econômico da competição não foi acompanhado por uma democratização do acesso às arquibancadas. Para grupos ligados ao futebol popular e movimentos sociais, a política de preços transformou um evento historicamente associado à participação coletiva em um produto direcionado aos consumidores de maior poder aquisitivo.
Com valores que chegaram a US$ 1 mil até mesmo em partidas da fase de grupos, a Copa impôs uma barreira financeira significativa para trabalhadores, famílias e torcedores que tradicionalmente constroem o ambiente das competições internacionais. Além das entradas, os visitantes tiveram de arcar com despesas de transporte, hospedagem e alimentação em algumas das cidades mais caras da América do Norte.
Parte relevante da arrecadação está relacionada ao sistema de comercialização e revenda de ingressos. A FIFA cobra uma taxa de 15% do vendedor e outra comissão de 15% do comprador em operações realizadas no mercado secundário oficial.
Na prática, a entidade obtém receita nas duas pontas da mesma transação. O modelo passou a ser questionado por estimular a especulação, especialmente quando entradas adquiridas inicialmente por preços mais baixos são recolocadas à venda por valores muito superiores.
A valorização artificial dos ingressos reduz as possibilidades de acesso para torcedores sem capacidade financeira de disputar entradas em um mercado sujeito à alta procura. Dessa forma, a revenda deixa de funcionar apenas como um mecanismo para quem não pode comparecer aos jogos e passa a integrar a estrutura comercial do torneio.
O resultado é uma competição na qual a presença nos estádios depende cada vez menos da ligação histórica com uma seleção e cada vez mais da disponibilidade de recursos. O torcedor popular, responsável pela construção cultural e simbólica do futebol, termina deslocado para transmissões públicas, praças, bares e espaços comunitários.
A Copa de 2026 foi a primeira realizada com 48 seleções, número superior às 32 participantes das edições anteriores. A mudança foi apresentada como uma forma de ampliar a representação de países e regiões no principal torneio de futebol do planeta.
A entrada de mais seleções, porém, também significou a realização de um número maior de partidas, a abertura de novas faixas comerciais e a expansão das oportunidades de venda de ingressos, direitos de transmissão, publicidade e produtos licenciados.
Nesse contexto, a ampliação esportiva serviu também como plataforma para o crescimento das receitas da FIFA. A escolha dos Estados Unidos como principal sede permitiu à entidade explorar um mercado com forte presença de patrocinadores, arenas de grande capacidade e consumidores acostumados a pagar preços elevados por eventos esportivos.
A final entre Argentina e Espanha, realizada em 19 de julho, encerrou uma edição que alcançou números expressivos fora de campo, mas acumulou críticas pela dificuldade de acesso do público tradicional.
A exclusão econômica atingiu especialmente os torcedores de países do Sul Global. Embora muitas dessas nações tenham no futebol uma de suas principais manifestações culturais, viajar para a América do Norte e acompanhar uma seleção durante várias fases do torneio tornou-se uma possibilidade restrita.
Além do custo das entradas, a participação exigiu despesas com passagens internacionais, vistos, deslocamentos internos e permanência em mais de uma cidade. O formato distribuído por três países ampliou as distâncias e elevou o orçamento necessário para acompanhar os jogos.
Essa realidade aprofundou a separação entre as seleções representadas dentro de campo e a composição do público nas arquibancadas. Países marcados por grandes mobilizações populares em torno do futebol tiveram participação limitada de seus próprios torcedores nos estádios.
A contradição se torna mais evidente porque a FIFA utiliza a diversidade cultural e a paixão das torcidas como elementos centrais da promoção comercial da Copa. As imagens de festas populares ajudam a vender o espetáculo mundialmente, embora parte das comunidades retratadas não tenha condições financeiras de participar presencialmente.
A FIFA sustenta que os recursos arrecadados em grandes torneios são utilizados para financiar programas de desenvolvimento do futebol, apoiar federações nacionais e ampliar estruturas esportivas em países com menor capacidade de investimento.
O argumento, no entanto, não encerra o debate sobre a concentração das receitas. Críticos do modelo afirmam que parte significativa do dinheiro permanece ligada aos grandes patrocinadores, às empresas de mídia, às operadoras comerciais e às estruturas esportivas dos mercados mais ricos.
Também há questionamentos sobre a ausência de políticas mais amplas de ingressos populares. A disponibilização de setores com preços acessíveis, cotas destinadas a moradores das cidades-sede e mecanismos de proteção contra a especulação poderiam reduzir a exclusão sem comprometer a sustentabilidade financeira da competição.
A projeção de US$ 15 bilhões demonstra a capacidade da FIFA de transformar a Copa do Mundo em uma das propriedades comerciais mais valiosas do esporte. Ao mesmo tempo, evidencia a distância crescente entre o sucesso financeiro da entidade e a possibilidade de participação dos torcedores que ajudaram a consolidar o futebol como fenômeno cultural global