Muito tempo atrás, quando ainda alimentava pretensões literárias, escrevi um conto que era mais ou menos assim: mal a partida terminava, todo mundo rodeava o mesmo jogador. Entre cotoveladas, os repórteres perdiam a voz para fazer perguntas improváveis aos ídolo. Do tipo:

O craque, então, coçava o queixo, limpava a testa de suor e, sem disfarçar o cansaço, respondia:

-Acho que mantém a taxa como está. Não seria surpresa um aumento de 0,25% na Selic. A inflação parece sob controle, mas no trimestre passado saiu do centro da meta com a guerra no Oriente Médio e o impacto nos preços do petróleo. A merda é contratar uma recessão agora e encarecer o crédito em ano de eleição.

-Se, para Wittgenstein, conhecer uma regra implica apreender uma entidade abstrata, qual é a definição essencial de "jogo"?

-Ah, pula isso e vai direto para Karl Popper. Aqui estamos todos perdidos.

-Não, no Brasileiro. Acabamos de perder para o Bahia.

O conto era tão ruim que nunca publiquei. Não tem registro dele em nenhum arquivo de esboços de 20 anos pra cá. Nem lembro bem como a história terminava. Se não me engano, o atleta virava uma espécie de oráculo de um país inteiro que não sabia para onde ir.

A ideia de colocar um jogador nesta posição vinha do inusitado. Atletas, em geral, não costumam falar de outros assuntos além do que acontece dentro das quatro linhas. Tirando flagrantes de traição ou novo affair, ninguém quer saber o que faz um artista fora do centro do espetáculo. A não ser que o mundo de fora afete o próprio espetáculo.

Mas o que eu queria mesmo, ao arriscar aquela história, era brincar com a capacidade de interlocução de um astro esportivo. Quem, afinal, tem mais alcance de público do que um jogador de futebol? 

Imagina se, em vez de campanhas de bets, um atleta de alto nível decidisse abraçar uma causa como o fim da violência contra meninas e mulheres?

Na história do futebol temos alguns exemplos de jogadores conscientes deste papel social. Homônimo de um filósofo, Sócrates puxa a fila. Raí, o irmão mais novo, herdou a causa. Afonsinho também ficou conhecido pela inteligência fora do comum. Tostão, que largou a bola e foi estudar medicina, nem se fala.

Ronaldo Fenômeno não era exatamente um homem culto, mas sempre chamou a atenção pela agilidade de raciocínio e o humor ácido, além da habilidade um tanto acima da média para fazer negócios extracampo.

No início dos anos 2020, o meia Gustavo Scarpa virou influencer literário ao postar nas redes resenhas curiosas sobre as obras que devorava na concentração. “Maneeeero, mlk inseto”, escreveu o atleta ao fim da leitura de “A Metamorfose”, de Franz Kafka.

Mais recentemente foi Danilo, lateral veterano da seleção, quem chamou a atenção em entrevistas sobre limites e a sensibilidades dos jogadores – este humano, demasiado humano.

Na pandemia, ao notar que a vida social tinha migrado de vez para os meios digitais, e que isso afetava o emocional de atletas de alto rendimento, cada vez mais vulneráveis a ataques nas redes, ele criou o Voz Futura, projeto de compartilhamento de informação sobre saúde mental.

Em 2026, tudo o que ele aprendeu nos livros foi testado na prática. Poucos acreditavam que ele teria condições de segurar a bucha de atuar na lateral da seleção, aos 33 anos, durante mais uma Copa do Mundo. E ele tem dado conta do trabalho.

Mais que isso, mais ou menos como o personagem da ficção que um dia criei e abandonei, ele se tornou uma referência para os companheiros ao falar da vida fora dos gramados – o que inclui falar sobre futuro, tema-tabu para quem mal consegue tirar os olhos e as atenções da próxima rodada.

Em uma entrevista coletiva nos Estados Unidos, Danilo disse que não quero jogar futebol “até muito tarde”. Tem planos para estudar psicologia e psicanálise. “É um campo que eu gosto muito, que eu sou apaixonado.”

O interesse vem da própria experiência como jogador. Muito cedo ele aprendeu que “mesmo quando temos uma vida que pode ser considerada completa, perfeita, muitas vezes estamos sempre buscando algo a mais. Existe uma sensação constante de insatisfação". 

Um fã de futebol incapaz de sorrir cada vez que a vida diz não ouve coisas do tipo e pensa: opa, pera lá, então não sou só eu. É como se alguém -- bem alguém que não pode, em tese, admitir falha -- finalmente estendesse a mão