A última guerra na América do Sul ocorreu em 1982 depois de a Junta Militar da Argentina ordenar a invasão do arquipélago dominado pelos britânicos nos 150 anos anteriores. Foi um conflito envolvendo dois aliados dos Estados Unidos na Guerra Fria e colocou os norte-americanos na controversa posição de ter de decidir qual dos lados apoiaria. Essa guerra, normalmente esquecida, sempre volta à tona quando há uma partida entre as seleções argentinas e inglesas, como ocorre hoje.
Rivalidade – Na minha coluna na editoria de Esportes desta quarta-feira, explico que um dos motivos de a Inglaterra ser vista como a maior inimiga da Argentina no futebol tem sua origem na Guerra das Malvinas, chamada de Falklands pelos britânicos. Essa rivalidade, que para os argentinos supera a existente contra o Brasil, ficou ainda mais intensa depois do jogo entre as duas seleções na Copa de 1986, quatro anos após a guerra, quando os argentinos venceram com dois gols históricos de Maradona — um com “la mano de dios” e outro considerado o mais bonito da história do Mundial.
Sentimento – Apesar de no resto do mundo a guerra ser quase esquecida, na Argentina, o sentimento pelas ilhas ainda é muito forte. Todos os presidentes, independentemente de serem de direita ou esquerda, mantêm a reinvindicação sobre o território. Para se ter uma ideia, Javier Milei, embora defenda que as ilhas sejam argentinas, recebeu fortes críticas por elogiar a administração de Margaret Thatcher, premiê britânica durante o conflito. Até hoje, em lojas de Buenos Aires, é possível comprar camisetas com os dizeres “Las Malvinas son argentinas”. A frase também costuma aparecer em placas pelo país.
Colonização – Inicialmente, as Malvinas/Falklands foram colonizadas pelos franceses no século 18, antes de passarem para as mãos dos espanhóis. Quando a Argentina se tornou independente em 1816, tratou as ilhas como parte da nova nação e chegou brevemente a colonizar o território. Em 1832, no entanto, os britânicos assumiram o controle do arquipélago, que chamaram de Falklands.
Britânicos – Houve uma colonização das ilhas, que têm como capital Port Stanley, chamada pelos argentinos de Puerto Argentino. Na época da invasão, a população era de três mil habitantes, chamados de kelpers. Na sua quase totalidade, possuem origem britânica e não pretendem ser parte da Argentina, tampouco ter independência do Reino Unido. O status quo seria a melhor alternativa para eles.
Ditadura – Por 150 anos, apesar de reivindicarem o arquipélago, os argentinos não decidiram reconquistá-lo pela força. Até houve negociações, sem sucesso. Em 1982, a Argentina era governada por uma ditadura militar que enfrentava uma crise. Uma guerra poderia unir o país e, anos antes, quase houve um conflito contra os chilenos por Beagle, impedido apenas por mediação do Papa.
Cálculo – Os generais argentinos sabiam que o sentimento pelas Malvinas/Falklands era enorme no país e contariam com forte apoio popular. Calcularam ainda que poderiam ter ao menos um parcial apoio dos EUA na ação. Na primeira parte, estavam corretos. A população, mesmo aqueles que se opunham à ditadura, posicionou-se a favor da invasão. Houve, no entanto, um cálculo errado em relação aos EUA. Embora alguns setores da administração de Ronald Reagan tivessem um viés pró-Argentina no conflito, no fim Washington acabou ao lado de Londres, praticamente isolando os argentinos no conflito.
Condenação – A Argentina foi derrotada na guerra e a ditadura, derrubada meses depois. Seus líderes acabaram condenados por atrocidades que resultaram na morte de cerca de 30 mil argentinos durante a ditadura entre 1976 e 1983. Ao todo, 649 militares argentinos foram mortos na guerra e todos são celebrados como heróis até hoje. Malvinas segue como um “sentimento” dos argentinos