Nenhuma lágrima revelou tanto sobre quem chorava quanto sobre quem comemorava. A final da Copa do Mundo terminou quando o árbitro encerrou a partida. O que veio depois escapou ao campo esportivo e entrou no território da psicologia, da filosofia e da vida em sociedade. A Espanha conquistou o título porque foi a melhor seleção do torneio, apresentou o futebol mais consistente, suportou os momentos decisivos com serenidade e encontrou, na prorrogação, o gol de Ferran Torres que premiou uma campanha construída com inteligência coletiva.
Bastaram poucas horas, porém, para que uma parcela significativa das redes sociais deixasse a taça em segundo plano e concentrasse sua atenção no rosto de Lionel Messi derrotado. A cena dizia muito menos sobre o craque argentino do que sobre quem transformou sua frustração em espetáculo.
O episódio expôs uma inversão de valores que vem se tornando cada vez mais frequente. A vitória espanhola deveria ter ocupado naturalmente o centro das conversas. Era a consagração da equipe que melhor jogou durante toda a competição. Em seu lugar, proliferaram vídeos, memes e comentários cujo principal combustível não era a qualidade do futebol espanhol, mas o prazer de assistir ao sofrimento de um atleta que construiu uma das carreiras mais extraordinárias da história do esporte. A discussão deixou de ser sobre mérito para gravitar em torno da queda de quem, durante duas décadas, acostumou o mundo à excelência.
Quando isso acontece, o futebol apenas fornece o cenário. O protagonista passa a ser o ressentimento.
Rivalidades esportivas sempre existiram e continuarão existindo. Elas fazem parte da beleza das competições. O problema começa quando a alegria deixa de nascer da própria vitória e passa a depender da derrota do outro. Há uma diferença profunda entre comemorar um título e necessitar da humilhação do adversário para experimentar satisfação. A primeira atitude fortalece identidades e celebra o mérito. A segunda revela uma dependência emocional preocupante: a felicidade já não encontra alimento nas próprias conquistas, mas na diminuição de quem chegou mais longe.
A psicologia social estuda esse fenômeno há décadas. Thomas Wills descreveu esse comportamento ao formular a teoria da comparação social descendente. Em determinadas circunstâncias, indivíduos incapazes de elevar a própria autoestima procuram restaurá-la reduzindo simbolicamente aqueles que ocupam posições de maior reconhecimento. Em vez de crescer, procuram encurtar a distância puxando o outro para baixo. Não se trata de competição saudável nem de espírito crítico. Trata-se de um mecanismo de compensação que produz alívio momentâneo, mas jamais transformação pessoal.
A internet potencializou esse comportamento numa escala inédita. Plataformas digitais descobriram rapidamente que indignação, sarcasmo e humilhação pública geram mais cliques, compartilhamentos e tempo de permanência do que reconhecimento, equilíbrio e admiração. O ressentimento deixou de ser apenas uma disposição psicológica para tornar-se um produto altamente rentável. Quanto maior a reputação da pessoa atingida, maior costuma ser a circulação do ataque.
Observo o que a lógica econômica das plataformas acabou encontrando no ressentimento um aliado permanente. Não por acaso, destruir reputações frequentemente produz mais visibilidade do que construir ideias.
A psicologia contemporânea utiliza a palavra alemã Schadenfreude para designar o prazer sentido diante da infelicidade alheia. O conceito não é novo. Nova é a velocidade com que esse sentimento passou a circular. Aquilo que antes permanecia restrito a pequenos grupos ganhou alcance global. Milhões de pessoas passaram a compartilhar, em tempo real, o mesmo impulso de ridicularização, legitimadas pela sensação de anonimato e pela aprovação instantânea oferecida por curtidas e comentários. O que antes era um comportamento privado converteu-se em espetáculo público.
A psicanálise amplia essa compreensão. Freud observou que a inveja dificilmente conduz alguém ao aperfeiçoamento. Melanie Klein aprofundou essa percepção ao demonstrar que o invejoso frequentemente procura atingir exatamente aquilo que reconhece como valioso no outro. A intenção deixa de ser conquistar qualidades semelhantes. O objetivo passa a ser reduzir o valor daquilo que desperta admiração. Friedrich Nietzsche identificou nesse movimento uma das marcas do ressentimento: a incapacidade de criar valores próprios leva alguns indivíduos a dedicar suas energias à desqualificação daqueles que representam força, competência ou realização.
Em vez de produzir excelência, tenta-se reescrever o significado da excelência.
Esse talvez seja um dos traços mais preocupantes do nosso tempo. Sociedades florescem quando conseguem admirar seus melhores cientistas, artistas, professores, escritores, médicos, atletas e pesquisadores. Entram em declínio quando passam a investir mais energia em desmontar reputações do que em formar novas referências. A crítica continua indispensável. Sem ela, nenhuma democracia amadurece. O problema nasce quando criticar deixa de significar examinar fatos e passa a significar apenas procurar defeitos. Nesse ambiente, a excelência deixa de inspirar. Passa a provocar hostilidade.
Minha admiração por Lionel Messi nasce dessa perspectiva. Ela não se limita ao talento de um jogador de futebol. Alguns seres humanos ultrapassam as fronteiras do país onde nasceram e passam a integrar um patrimônio simbólico compartilhado por milhões de pessoas. Foi assim com Pelé. Foi assim com Garrincha. É assim com Cristiano Ronaldo, Harry Kane e Messi. Não porque sejam infalíveis, mas porque construíram trajetórias cuja dimensão ultrapassa clubes, seleções, idiomas e nacionalidades. Há vidas que deixam de pertencer apenas à biografia de seus protagonistas para ingressar na memória coletiva do esporte.
Por essa razão, nunca me interessou elaborar um catálogo de imperfeições de Messi. As redes sociais já fazem esse trabalho diariamente e com eficiência impressionante. Preferi olhar para aquilo que explica sua permanência entre os maiores atletas de todos os tempos: mais de duas décadas competindo no mais alto nível, oito Bolas de Ouro, dezenas de títulos, recordes sucessivamente quebrados e uma capacidade rara de manter regularidade onde quase todos sucumbem à passagem do tempo. O reconhecimento mundial não surgiu de uma campanha publicitária nem de uma narrativa fabricada. Foi conquistado diante de milhões de testemunhas, temporada após temporada.
Existe outro aspecto quase sempre ignorado quando se observa uma carreira dessa dimensão. Grandes trajetórias nunca são obras solitárias. Jorge Messi dedicou boa parte da vida a proteger o ambiente em que o filho pudesse desenvolver plenamente seu talento. Administrou negociações complexas, filtrou pressões externas, preservou o equilíbrio familiar e compreendeu que carreiras extraordinárias exigem estabilidade muito antes de exigirem aplausos. O sucesso costuma aparecer no momento em que as câmeras são ligadas; sua construção acontece durante anos, longe delas.
Essa diferença ajuda a compreender um contraste característico do nosso tempo. Construir reputações exige décadas. Destruí-las pode levar apenas alguns minutos. Formar um cientista, um músico, um escritor, um atleta ou um pesquisador envolve disciplina, estudo, persistência e incontáveis renúncias. Produzir um meme ou uma corrente de zombarias exige apenas um telefone celular e alguns segundos de atenção. A velocidade com que hoje se espalham ataques públicos criou a ilusão de que ironia substitui inteligência e de que ridicularizar alguém equivale a formular uma crítica consistente.
Essa lógica alcança muito mais do que o futebol. Ela atravessa a política, a cultura, a universidade, o jornalismo, a ciência e praticamente todos os espaços públicos. Sempre que uma sociedade passa a dedicar mais energia à destruição de referências do que à formação de novas referências, alguma coisa começa a se deteriorar em seu horizonte cultural. Os jovens deixam de perguntar o que tornou alguém admirável e passam a perguntar apenas onde encontrar sua próxima falha. A curiosidade cede espaço à suspeita permanente. A admiração passa a ser confundida com ingenuidade.
A Espanha não precisou diminuir Lionel Messi para conquistar a Copa do Mundo. Precisou apenas jogar melhor durante noventa minutos e uma prorrogação. Essa é a diferença entre quem busca excelência e quem depende do ressentimento. A excelência concentra suas forças no próprio aperfeiçoamento. O ressentimento desperdiça energia tentando reduzir a estatura dos outros.
O futebol terminou quando o árbitro apitou o fim da partida. A conversa que se seguiu revelou algo muito mais importante do que o resultado da final. Revelou que uma sociedade começa a perder parte de sua vitalidade quando deixa de reconhecer o mérito como um valor em si mesmo. Diminuir os melhores nunca produziu pessoas melhores. Apenas oferece um alívio passageiro a quem desistiu de enfrentar as próprias limitações.
A verdadeira grandeza continua pertencendo àqueles que conseguem admirar a excelência sem sentir que ela diminui a sua própria