Caminho neste momento desde o que eu chamo de centro-centro de Montevidéu, é onde está a Plaza Independencia, com destino ao endereço que recebi mais cedo por mensagem: Avenida 18 de Julio, precisamente o número 1199.

É curioso, penso: por que ele escolheu este entre tantos endereços? Há tantas ruas e avenidas mesmo em uma cidade pequena como a capital do Uruguai. Bem, o fato é que ele escolheu a 18 de Julio, e que se chama assim porque foi nessa data, mas em 1830, que o país promulgou sua primeira constituição - cinco anos antes, em 1825, o Uruguai havia declarado sua independência do Brasil, na época um império.

Talvez seja apenas um chiste. Mas eu não o conheço assim tão bem, não tenho intimidade para que seja alvo de uma ‘broma’ - ainda que, eu penso, seria uma honra contar nas redes sociais que uma pessoa como ele fez algo do tipo comigo.

A caminhada é curta, mesmo para uma pessoa com pouco fôlego como eu, e chego ao endereço distante do centro-centro de Montevidéu em não mais que dez minutos. Faz frio, um frio molhado como só essa cidadezinha consegue entregar.

Uma livraria não é o lugar mais adequado para o que vamos fazer. Ainda assim, não se deve discutir com ele, questioná-lo. Ele é Ele, pra muita gente com ‘E’ maiúsculo mesmo. Como um deus ou como Pelé - que no fim das contas dá no mesmo porque Pelé foi um deus para aqueles que não têm religião e que também não conhecem um ateu sequer.

Logo na entrada, do lado esquerdo, está o caixa, ocupado por uma jovem desinteressada da vida alheia diante de um romance de Saramago. Um gato branco se acomoda preguiçosamente em cima de uma edição usada, maltratada, manchada e desmilinguida de O Romance Luminoso. Tentei quatro vezes e fracassei todas as quatro vezes que tentei terminar esse livro, me lembro de imediato.

O gato, mais blasé do que a caixa, me ignora por completo.

Tiro meu casaco pesado azul marinho só para mostrar a camisa do Nacional que acabei de comprar, outro dia, na tienda oficial do Parque Central. O Nacional é um dos grandes clubes de futebol que o Uruguai tem, rivaliza com aquele time que veste preto e amarelo. Caminhar pelas alamedas que dão no Parque Central é um exercício menos físico, mas sobretudo mental: deve-se esquecer tudo o que você sabe sobre futebol moderno, o dito e festejado futebol global.

Não estamos perto de uma moderna arena, localizada a quilômetros e quilômetros do centro de uma cidade grande, com enormes estacionamentos. Não, aqui, o estádio surge modesto - não menos fascinante - em meio a casas bem cuidadas, em sua maioria, mas muito velhas, como parece ser tudo por aqui. Um estádio que recebe a todos bem, quase de forma aconchegante. Nunca vou me esquecer: na minha primeira vez no estádio, vim como visitante. Queria fotografar a arquibancada que ficaria então à minha frente e que abriga os barra-brava do Nacional, mas que também são aqueles que gritam o que não tem na garganta, depois de gastar o que não têm no bolso, para entrar e apoiar o Nacional até o apito final ou até a morte, sem exageros aqui.

Nunca vou esquecer, pois o chão que dá acesso à arquibancada era de grama e terra batida poeirenta. Deve ser assim até hoje num estádio que - 100 anos depois daquela constituição - recebeu partidas de Copa do Mundo.

A Copa do Mundo, aliás, que acabou de acabar. E falar de Copa do Mundo é precisamente o que eu vim fazer aqui hoje. Com Ele.

Nada é mais acolhedor do que uma livraria. Mas uma livraria no Uruguai é mais acolhedora do que uma no Rio de Janeiro, por exemplo. E essa aqui que eu acabei de entrar é daquelas de filme - ou de manual.

Mesas abarrotadas de livros, paredes abarrotadas de livros em estantes, um mezanino, adivinha… pois é, também abarrotado de livros. Mas essa livraria tem um porão, e nesse porão tem pedras nas paredes, muitas pedras. Mas ao contrário do que parece à primeira vista, o local é iluminado.

Também é acolhedor. Num canto à direita de quem entra, está Ele.

Confortavelmente sentado em uma poltrona, com uma taça de vinho, taça colocada em uma mesinha do seu lado esquerdo - sempre o lado esquerdo. Vejo uma cadeira, que parece bem mais confortável que a dele, e uma televisão está ligada na final do mundial de futebol.

Galeano acompanha os últimos momentos da vitória da Espanha contra a Argentina. Messi acaba de perder mais uma, como no Brasil em 2014. Não resisto e pergunto sobre Messi, mas Ele prefere responder sobre Maradona, um gênio que fez em uma mesma Copa do Mundo, a do México, em 1986, dois dos mais maravilhosos gols da história dos mundiais.

“Seus devotos o veneravam pelos dois: não apenas era digno de admiração o gol do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas, como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou”.

A televisão agora exibe uma série infindável de comerciais, de muitas das marcas que também patrocinam a Copa do Mundo. Ele se lembra que houve uma época, em Buenos Aires, que não se tratava mais de um Boca Juniors contra River Plate, mas de um clássico Quilmes contra Quilmes porque a marca de cerveja patrocinava os dois supertimes.

“Poder-se-ia dizer que a Adidas venceu a Nike quando a França derrotou o Brasil no final do Mundial de 1998”, diz o escritor após beber um gole de vinho e mordiscar um queijo. Lembro a Ele que essa final suscitou uma série de teorias da conspiração no Brasil, muitas delas sugerindo que as duas marcas esportivas mais importantes do mundo tinham alguma coisa a ver com o drama de Ronaldo e com a glória de Zidane. Lembro que isso parece comum no meu País.

Ele diz que no Uruguai também a vitória é importante e que no futebol, quando ela acontece, é sempre por providência da tal garra charrua. Só que, ele completa, “No ano de 1832, os poucos índios charruas que tinham sobrevivido à derrota de Artigas foram convidados a firmar a paz, e o presidente do Uruguai, Fractuoso Rivera, prometeu que eles iam receber terras”. Receberam comida, bebida, adormeceram. Os soldados entraram em ação e os charruas foram libertados de sua vida a golpes de punhal