Administrador de empresas pela FGV, doutor em urbanismo pela FAU-USP e autor do livro 'Espaço Público e Urbanidade em São Paulo'

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Das três aberturas, só a do México emociona. A torcida grita "olé" e o estádio Asteca cheira a tricampeonato. Em São Paulo, a Copa tem cheiro de festa junina, bandeirinhas e figurinhas. As 2.148 bancas que sobrevivem na cidade ganham novos clientes. Pais se juntam aos filhos para trocar e bater o bafo. A Panini corre para imprimir cromos extras de Neymar.

Enquanto Carlo Ancelotti se preocupa com a falta de lateral direito, o Operador Nacional do Sistema se preocupa com a falta de eletricidade. Durante as partidas, o consumo despenca, mas assim que acaba, todo mundo corre para ligar o microondas e a air fryer. A lateral direita deu trabalho, mas não faltou energia elétrica.

Surge o herói improvável. Vozinha pega tudo e garante a esperança de que um dia os pequenos derrotarão os grandes. Torcemos para Senegal, Egito, Paraguai e Costa do Marfim, até o fim inevitável. Meu vizinho grita a cada gol africano e se cala diante dos outros. A revista The Economist divulgou semana passada o índice de melhores cidades para se viver. Nenhuma africana, nenhuma latino-americana.

Iranianos são impedidos de pernoitar nos EUA. A cada jogo, saem do México, viajam, jogam e voltam, até a desclassificação. Em 5 de julho, Trump decide voltar a atacar o Irã e o preço do petróleo volta a subir. Antes do jogo entre Brasil e Escócia, São Paulo bateu o recorde histórico de congestionamento, com 1.690 km.

Quando o Catar já perdia por três a zero e tinha um jogador a menos, o narrador da CazéTV sugere a oportunidade –a tal odd– de apostar num gol catari. Levantamento da Open Finance mostra que 34,8% da população brasileira apostou em bets durante a Copa.

No supermercado, ganho cumprimento de uma vizinha de fila: "Bom jogo pra nós!". No intervalo da partida, aplicativos prometem bebida gelada em 10 minutos. A cidade de São Paulo divulga a maior taxa de mortos no trânsito da última década.

Bares de rua fecham as calçadas, envelopam a entrada e cobram para assistir aos jogos. No Parque Villa-Lobos, a concessionária aluga espaço para a CazéTV mostrar os jogos numa arena gigante, cobrando ingresso. Sem eventos e sem receitas, a concessionária do Horto Florestal pede arrego no contrato. A prefeitura anuncia a cessão da praça Roosevelt à iniciativa privada.

Haaland é promovido de feio a bonito, o Brasil se enrola e perde. As ações da Heineken e Inbev caem no dia seguinte, devido à redução na expectativa de vendas de cervejas após a nossa derrota.

Messi leva a Argentina a mais uma vitória impossível. A "Copa dos protagonistas" se explica tanto pela excelência dos artilheiros como pela nossa frágil busca pelos salvadores da pátria. Há dúvida sobre os argentinos. Serão eles latino-americanos ou não?

Trump liga para Infantino e o cartão vermelho que o jogador americano Balogun recebera do árbitro brasileiro Rafael Claus é anulado. Desde maio, o Brasil participa de negociação bilateral com os americanos para evitar aumento extra nas tarifas comerciais.

A nossa Copa acabou, agora a Copa é a dos outros. Veremos jogaços em meio às propagandas com Galvão Bueno e Vini Jr. Depois, o assunto serão as eleições. Pesquisa Datafolha de 29 de junho mostra que apenas 23% dos brasileiros lembram em quem votaram para deputado federal e 67% não sabem o nome de nenhum parlamentar atual.

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